Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ZAQUEU

A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre os ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pássaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares me deste
A pequenez.

DANIEL FARIA

domingo, 20 de novembro de 2016

HARMONIA

De mãos dadas na fria madrugada
Quando tudo em redor então dormia
Na paz daquela noite inacabada
Esperámos ambos o nascer do dia.

Não era necessário dizer nada
Tudo o que sentias, eu sentia
E a doçura azul da alvorada
Mais e mais um ao outro nos prendia.
 
No sossego da manhã ainda parada
Do dia glorioso que nascia
Subia em nós a aragem perfumada
Dum mundo novo pleno de harmonia.

MARIA DO ROSÁRIO PAIVA RAPOSO

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

RÉDEA SOLTA

Descalça pela praia, à beira mar
No silêncio da aurora ou do poente
tantas vezes passeio, sem pensar
Que deixo voar livre o pensamento

Vou imprimindo as marcas dos meus passos
Entre as marcas que deixaram as marés;
E onde ficam restos de sargaços
A água fria vem tocar-me os pés

Meus cabelos são batidos pelo vento
A minha boca enche-se de sal
Rédea solta deixo ao pensamento
P'ra  lugares onde o tempo é imortal

Onde tudo principia e nada morre
E as coisas belas sempre permanecem
O tempo ali não conta, ali não corre
E os mundos infinitos adormecem

Aberta, toda, à imensidão do espaço
Onde as coisas vivas têm berço
Quereria sentir num só abraço
O pulsar inteiro do Universo

MARIA DO ROSÁRIO PAIVA RAPOSO

quarta-feira, 28 de setembro de 2016


ELEGIA E DESTRUIÇÃO

Desse tempo em que se permanece criança
durante milhares de anos,
trouxe comigo um cheiro a resina;
trouxe também os juncos vermelhos
que ladeiam a orla do silêncio,
neste quarto, agora habitado pelo vento;
trouxe ainda um olhar húmido
onde os pássaros perpetuam o céu.

Dificilmente esqueço a rua onde encontrei
os teus olhos imensos, fascinados
pelo fulgor secreto das espadas,
a casa onde te contei, de mãos trémulas,
a parábola do pão e do vinho,
dando a cada palavra um rosto novo.

A cidade onde te amei foi decepada
e não posso abolir as sentinelas do medo.
Mas também não posso deixar de te querer
com beijos e relâmpagos,
com sonhos que tropeçam nas paredes
e se alimentam de terror e de alegria,
enquanto o tempo persiste em soluçar.

Que me quereis verdes sombras da lua
na minha cama onde adormece o frio?
Aqui estou, mais alto do que o trigo,
sangrando nas pétalas do dia,
e sem receio de que aos nossos gritos
ainda chamem brisa.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Infinito e poesia

SONETO

Tempo das cerejeiras agressivas
A avançar pelo meu quarto dentro.
Velho tempo das noites explosivas
Em que o sangue crescia como o vento!

Tempo - aproximação das coisas vivas,
Do seu hálito doce, violento.
Tempo - horas e horas convertidas
No ouro raro e inútil dum lamento...

Tempo como uma ferida no meu lado,
Coração palpitando sobre a lama.
Tempo perdido, sangue derramado,

Resto de amor que se deixou na cama,
Horizonte de guerra atravessado
Pelo corpo audacioso duma chama.

Alexandre O'Neill

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Complexidades


Nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora

Herberto Helder

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mar e poesia

O ritmo antigo que há nos pés descalços
Esse ritmo das ninfas copiado
        Quando sob arvoredos
        Batem o som da dança -

Pelas praias às vezes, quando brincam
Ante onde a Apolo se Neptuno alia
        As crianças maiores,
        Têm semelhanças breves

Com versos já longínquos em que Horácio
Ou mais clássicos gregos aceitavam
        A vida por dos deuses
        Sem mais preces que a vida.

Por isso à beira deste mar, donzelas,
Conduzi vossa dança ao som de risos
        Soberbamente gregas
        Pelos pés nus e a dança

Enquanto sobre vós arqueia Apolo
Como um ramo alto o azul e a luz da hora
        E há o rito primitivo
        Do mar lavando as costas.


RICARDO REIS

sexta-feira, 10 de junho de 2016

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Emaranhado e poesia

MORALETA

O zelo não pode ser
sobre-humano.
O zelo é de ombro com ombro,
nosso mano!

Zela, zela p'lo teu zelo,
e não nos percas de vista!
Que prazer em recebê-lo!
Que emulação ao tê-lo,
entre nós, galos sem crista!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Abandonados

Cadeira abandonada no parque, junto de um campo de ténis, também ele num triste estado de abandono.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nuvens e poesia

Eram sete e meia.
O mais tardar que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

José de Almada Negreiros

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Crepúsculo e poesia



Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.


Herberto Helder

domingo, 10 de abril de 2016

Nuvens, água, terra e poesia


AS NASCENTES DA TERNURA

1
No espaço de um relâmpago
os olhos reflectem os navios.

2
O silêncio brilha acariciado.

3
O silêncio é de todos os rumores
o mais próximo da nascente.

4
Só água era, e sem memória.

5
Claridade sem repouso, ó claridade,
aguda nos juncos, nas pedras rasa.

6
É no ardor dos cardos
que o vento faz a casa.

7
Da pedra ao sal, do sal à espuma,
amo a pobreza e a brancura.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 29 de março de 2016

Sol e poesia

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens,
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao Homem verdadeiro e primitivo
que via o sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural - mais natural
Que adorar o sol e depois Deus
E depois tudo o mais que não há.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Nuvens e poesia


Odeio a forma bruta, a crua luz acesa;
Amo a sombra, o apagado, a nuvem, o indeciso,
O sítio onde se muda a Natureza
No jardim di Paraíso.

Quero viver longe de mim, de tudo,
Lá onde a derradeira estrela desabrocha!
Que envolva este meu ser o que é escuro e mudo.
Esconde-me, ó distância, em tua névoa roxa!

Teixeira de Pascoaes

quarta-feira, 23 de março de 2016

Rio Tejo e poesia

EPITÁFIO

Barcos ou não
ardem na tarde.

No ardor do verão
todo o rumor é ave.

Voa coração.
Ou então arde.

Eugénio de Andrade

sábado, 19 de março de 2016

Pináculo e poesia


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até àas oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

José de Almada Negreiros

quinta-feira, 10 de março de 2016

Crepúsculo e poesia

PAISAGEM VERDADEIRA

O verde tenro e vivo, de folhagem,
presépio dos meus sonhos, em menino,
pôs-se de luto a par do meu destino,
cego-me a vê-lo imagem de miragem.

Quando, iludido, o busco na ramagem,
já com seus tons mais brandos não atino.
E nesta escuridão, só me ilumino
vendo-o compor-me interior paisagem.

Paisagem de oiro verde, que de mim
sai alongada em foco para a terra,
a procurar vencer-lhe a cerração.

E onde num crepúsculo sem fim
tonta, a esperança, esvoaçando, erra
sobre torres de encanto e de traição.

Edmundo de Bettencourt