Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Medronhos

Flores e frutos coincidem neste tempo de final de outono. Os frutos ainda demoram um pouco a ficar maduros. As flores estão em botão.

Mas, observando alguns ramos, eis que as pequenas cápsulas vão estando abertas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Casa e mar

O soneto de Vitorino Nemésio fez-me recordar o mar da Póvoa de Varzim. Associação que não sei explicar e que pode não ter qualquer sentido. Apenas eu e o mar.

A CONCHA

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inicência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos  esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

VITORINO NEMÉSIO

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Mar e poesia

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
- Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

CAMILO PESSANHA

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Paisagem e poesia

PRESSÁGIO

A caminho dum olho (por sinal bem bonito)
aguça-se um estilhaço de contente,
como um dente que vê um manjar «esquisito»...

Leva anos, ainda, a assassina viagem:
o estilhaço, por enquanto, é só um mito,
e, plácido, o olho deixa entrar a paisagem...

ALEXANDRE O'NEILL

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A pensar no Brasil

RUA DOS CATAVENTOS II

Dorme ruazinha... E tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos...

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre o muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...

MÁRIO QUINTANA

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Lembranças de Espanha em final de verão

Aracena
NOCHE DE VERANO

Es una hermosa noche de verano.
   Tienen las altas casas
abiertos los balcones
del viejo pueblo a la anchurosa plaza.
En el amplio rectângulo desierto,
bancos de piedra, evónimos y acacias
simétricos dibujan
sus negras sombras en la arena blanca.
En el cenit, la luna, y en la torre
la esfera del reloj iluminada.
Yo en este viejo pueblo paseando
solo, como un fantasma.

ANTONIO MACHADO

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A UMA OLIVEIRA

Muito antes de Os Lusíadas diz-se que aqui já estavas.

Pré-camoniana,
sazão a sazão,
foste varejada séculos a fio.

O pinho viajou.
Tu ficaste.

Ao som bárbaro de um rádio de pilhas,
desdobram toalhas
na tua sombra rala.

ALEXANDRE O'NEILL

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O CICLISTA

O homem que pedala, que ped'alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.

ALEXANDRE O'NEILL

(Lembrei-me deste poema a propósito das looongas transmissões da volta a Portugal em bicicleta da RTP)

Loendro

Na secura do verão do Alentejo, os loendros resistem e cobrem-se de belas flores.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

No dia da poesia

Não são vermelhas, mas são bonitas.
CANÇÃO DA LARANJA VERMELHA

Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
- Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fios verdes.
Três túmulos se abriram e dele saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo -
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.

HERBERTO HELDER

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Poesia e paisagem com nevoeiro


Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
    Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que em mim sinto
    Veio hoje e isto é estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a própria forma
    Que tem para consigo?

RICARDO REIS

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Manhã de dia de Natal

Ontem, céu limpo. Hoje, céu nublado. De noite choveu.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Caminhos percorridos




"O caminho também é um lugar" (José Luis Peixoto, O Caminho Imperfeito)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A primeira orquídea

No meu jardim de vasos, num terraço onde os extremos de temperatura não garantem a sobrevivência das minhas plantas, que já conheceram melhores dias, surge a primeira orquídea.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Oliveira

Qual a sua idade? Centenas, milhares de anos? Quem a plantou?
Tronco atormentado, rugas profundas, de quem já viveu muito e presenciou as muitas vidas que sustentou.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

PARA A LUZ


Como essas plantas que fogem da sombra
E à procura da luz erguem o seu caule
Cegas na ascensão, contudo seguras
Mesmo que nunca a alcancem, de que existe
Como algo mais que um sonho ou um reflexo.
Erguendo-se assim, sem esperança,
Fiéis ao seu destino irremissível
De ascender no ar, perseguindo
Um sol que não conhecem mas pressentem
Não fosse dele a sua carne sinal e memória.

Como essas plantas que fogem do escuro
E tendem na sua ânsia para o alto
Arriscando a vida por mais vida
Assim procurei o amor. Como essas plantas,
Entre sombras se ergueu o meu desejo
Perseguindo a luz para te encontrar.

ABELARDO LINARES

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta quando,
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças,
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

LUÍS DE CAMÕES

terça-feira, 21 de março de 2017

Regato e poesia (no dia)


Também poderia ter escrito de ter provado no deserto
O silêncio, o dilúvio

A pequena península de água
que o silêncio não enxuga.

DANIEL FARIA