Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A UMA OLIVEIRA

Muito antes de Os Lusíadas diz-se que aqui já estavas.

Pré-camoniana,
sazão a sazão,
foste varejada séculos a fio.

O pinho viajou.
Tu ficaste.

Ao som bárbaro de um rádio de pilhas,
desdobram toalhas
na tua sombra rala.

ALEXANDRE O'NEILL

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O CICLISTA

O homem que pedala, que ped'alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.

ALEXANDRE O'NEILL

(Lembrei-me deste poema a propósito das looongas transmissões da volta a Portugal em bicicleta da RTP)

Loendro

Na secura do verão do Alentejo, os loendros resistem e cobrem-se de belas flores.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

No dia da poesia

Não são vermelhas, mas são bonitas.
CANÇÃO DA LARANJA VERMELHA

Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
- Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fios verdes.
Três túmulos se abriram e dele saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo -
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.

HERBERTO HELDER

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Poesia e paisagem com nevoeiro


Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
    Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que em mim sinto
    Veio hoje e isto é estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a própria forma
    Que tem para consigo?

RICARDO REIS

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Manhã de dia de Natal

Ontem, céu limpo. Hoje, céu nublado. De noite choveu.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Caminhos percorridos




"O caminho também é um lugar" (José Luis Peixoto, O Caminho Imperfeito)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A primeira orquídea

No meu jardim de vasos, num terraço onde os extremos de temperatura não garantem a sobrevivência das minhas plantas, que já conheceram melhores dias, surge a primeira orquídea.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Oliveira

Qual a sua idade? Centenas, milhares de anos? Quem a plantou?
Tronco atormentado, rugas profundas, de quem já viveu muito e presenciou as muitas vidas que sustentou.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

PARA A LUZ


Como essas plantas que fogem da sombra
E à procura da luz erguem o seu caule
Cegas na ascensão, contudo seguras
Mesmo que nunca a alcancem, de que existe
Como algo mais que um sonho ou um reflexo.
Erguendo-se assim, sem esperança,
Fiéis ao seu destino irremissível
De ascender no ar, perseguindo
Um sol que não conhecem mas pressentem
Não fosse dele a sua carne sinal e memória.

Como essas plantas que fogem do escuro
E tendem na sua ânsia para o alto
Arriscando a vida por mais vida
Assim procurei o amor. Como essas plantas,
Entre sombras se ergueu o meu desejo
Perseguindo a luz para te encontrar.

ABELARDO LINARES

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta quando,
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças,
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

LUÍS DE CAMÕES

terça-feira, 21 de março de 2017

Regato e poesia (no dia)


Também poderia ter escrito de ter provado no deserto
O silêncio, o dilúvio

A pequena península de água
que o silêncio não enxuga.

DANIEL FARIA

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Almada Negreiros

Eram sete e meia.
O mais tardar que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

José de Almada Negreiros

(a programar a visita à exposição: José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno, na Fundação Calouste Gulbenkian)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e que já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu ia...

Manuel António Pina

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017

No primeiro dia de 2017, uma imagem do quotidiano. 
A beleza de estruturas nos objectos mais inesperados.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

APOLO MUSAGETA

Eras o primeiro dia inteiro e puro
Banhando os horizontes de louvor.

Eras o espírito a falar em cada linha
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar
Eras o conhecimento pelo amor.

Sonho e presença
De uma vida florindo
Possuída e suspensa.

Eras a medida suprema, o canôn eterno
Erguido puro, perfeito e harmonioso
No coração da vida e para além da vida
No coração dos ritmos secretos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Água, luz e poesia

QUASE NADA

Passo e amo e ardo
Água? Brisa? Luz?
Não sei. E tenho pressa:
levo comigo uma criança
que nunca viu o mar.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ZAQUEU

A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre os ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pássaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares me deste
A pequenez.

DANIEL FARIA

domingo, 20 de novembro de 2016

HARMONIA

De mãos dadas na fria madrugada
Quando tudo em redor então dormia
Na paz daquela noite inacabada
Esperámos ambos o nascer do dia.

Não era necessário dizer nada
Tudo o que sentias, eu sentia
E a doçura azul da alvorada
Mais e mais um ao outro nos prendia.
 
No sossego da manhã ainda parada
Do dia glorioso que nascia
Subia em nós a aragem perfumada
Dum mundo novo pleno de harmonia.

MARIA DO ROSÁRIO PAIVA RAPOSO