Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Complexidades


Nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora

Herberto Helder

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mar e poesia

O ritmo antigo que há nos pés descalços
Esse ritmo das ninfas copiado
        Quando sob arvoredos
        Batem o som da dança -

Pelas praias às vezes, quando brincam
Ante onde a Apolo se Neptuno alia
        As crianças maiores,
        Têm semelhanças breves

Com versos já longínquos em que Horácio
Ou mais clássicos gregos aceitavam
        A vida por dos deuses
        Sem mais preces que a vida.

Por isso à beira deste mar, donzelas,
Conduzi vossa dança ao som de risos
        Soberbamente gregas
        Pelos pés nus e a dança

Enquanto sobre vós arqueia Apolo
Como um ramo alto o azul e a luz da hora
        E há o rito primitivo
        Do mar lavando as costas.


RICARDO REIS

sexta-feira, 10 de junho de 2016

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Emaranhado e poesia

MORALETA

O zelo não pode ser
sobre-humano.
O zelo é de ombro com ombro,
nosso mano!

Zela, zela p'lo teu zelo,
e não nos percas de vista!
Que prazer em recebê-lo!
Que emulação ao tê-lo,
entre nós, galos sem crista!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Abandonados

Cadeira abandonada no parque, junto de um campo de ténis, também ele num triste estado de abandono.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nuvens e poesia

Eram sete e meia.
O mais tardar que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

José de Almada Negreiros

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Crepúsculo e poesia



Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.


Herberto Helder

domingo, 10 de abril de 2016

Nuvens, água, terra e poesia


AS NASCENTES DA TERNURA

1
No espaço de um relâmpago
os olhos reflectem os navios.

2
O silêncio brilha acariciado.

3
O silêncio é de todos os rumores
o mais próximo da nascente.

4
Só água era, e sem memória.

5
Claridade sem repouso, ó claridade,
aguda nos juncos, nas pedras rasa.

6
É no ardor dos cardos
que o vento faz a casa.

7
Da pedra ao sal, do sal à espuma,
amo a pobreza e a brancura.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 29 de março de 2016

Sol e poesia

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens,
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao Homem verdadeiro e primitivo
que via o sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural - mais natural
Que adorar o sol e depois Deus
E depois tudo o mais que não há.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Nuvens e poesia


Odeio a forma bruta, a crua luz acesa;
Amo a sombra, o apagado, a nuvem, o indeciso,
O sítio onde se muda a Natureza
No jardim di Paraíso.

Quero viver longe de mim, de tudo,
Lá onde a derradeira estrela desabrocha!
Que envolva este meu ser o que é escuro e mudo.
Esconde-me, ó distância, em tua névoa roxa!

Teixeira de Pascoaes

quarta-feira, 23 de março de 2016

Rio Tejo e poesia

EPITÁFIO

Barcos ou não
ardem na tarde.

No ardor do verão
todo o rumor é ave.

Voa coração.
Ou então arde.

Eugénio de Andrade

sábado, 19 de março de 2016

Pináculo e poesia


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até àas oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

José de Almada Negreiros

quinta-feira, 10 de março de 2016

Crepúsculo e poesia

PAISAGEM VERDADEIRA

O verde tenro e vivo, de folhagem,
presépio dos meus sonhos, em menino,
pôs-se de luto a par do meu destino,
cego-me a vê-lo imagem de miragem.

Quando, iludido, o busco na ramagem,
já com seus tons mais brandos não atino.
E nesta escuridão, só me ilumino
vendo-o compor-me interior paisagem.

Paisagem de oiro verde, que de mim
sai alongada em foco para a terra,
a procurar vencer-lhe a cerração.

E onde num crepúsculo sem fim
tonta, a esperança, esvoaçando, erra
sobre torres de encanto e de traição.

Edmundo de Bettencourt

segunda-feira, 7 de março de 2016

Luz

Rasto de luz, encrespado, rumo ao infinito.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Mar

RADIOGRAMA

Alegre    triste    meigo    feroz    bêbado
lúcido
no meio do mar


Claro    obscuro    novo    velhíssimo    obsceno
puro
no meio do mar


Nado-morto às quatro    morto a nado às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar

MÁRIO CESARINY

sábado, 27 de fevereiro de 2016

a luz crua penetra
pela fisga da tarde     entreaberta

avança cautelosa pelo silêncio
e enrosca-se nele      e vence-o


Henrique Ruivo

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Aprisionada

A luz entra pela circular fresta
chega aprisionada ao interior.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Outono

Já quase a chegar o inverno, uma imagem de outono num canal. Bélgica, outubro de 2015.