Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

terça-feira, 4 de junho de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

Verde e poesia

ESTOU VIVO E ESCREVO SOL

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo ao sol

Se as minha lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

ANTÓNIO RAMOS ROSA

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ruínas 2

No canto da cozinha, jaz a desconjuntada mesa. Era um modelo de mesa muito comum nas casas pobres do Alentejo.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ruínas 1

É uma sequência de pequenas casas, algumas apenas com cozinha e um quarto, outras com dois quartos. Todas arruinadas. Algumas mais do que outras. Neste caso, ainda resta parte da cobertura, a chaminé e restos de mobiliário, como a estante que servia para colocar os pratos e que teima em continuar pendurada na parede.

sábado, 6 de abril de 2013

Porque hoje é sábado...

Simetrias
CONSELHO

Cerca de grandes muros quem te sonhas,
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim,
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

FERNANDO PESSOA

quinta-feira, 28 de março de 2013

Nuvens e poesia

Brincando com as nuvens
E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos   E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro da noite     não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

DAVID MOURÃO-FERREIRA

quinta-feira, 21 de março de 2013

Bosque e poesia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

NATÁLIA CORREIA

domingo, 17 de março de 2013

Paisagem com nuvens e poesia

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.

Camilo Pessanha

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Mar


Construi uma casa no mar.
Com portal para o vento e um terraço onde escuto o grito do albatroz
ou recolho o polén das estrelas.
Plantei nas ondas uma árvore. São peixes
as pequeníssimas folhas desta árvore
que sinto crescer como um amigo.
Todos os móveis da casa são de água. Densa,
vermelha, filha de um vulcão,
ou leve, clara, irmã do linho.
Os tapetes têm a cor de antigos versos que elogiam o mar.
Canções, odes, barcarolas. De um tempo
em que o sol emprenhava as corças numa cama de folhas
e onde agora é deserto.
Nessa casa de água, escrevo. E, para o teu poema,
lanço a minha rede. Nela vêm, doirados, ofegantes, vivos,
os cardumes de sílabas.

Joaquim Pessoa

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Salamaleques

Sua Excelência Meretíssima entrou e toda a gente o tratou com uma polidez exagerada e se curvou com gestos reverentes. Os rapapés e as reverências continuaram porque, ao fim e ao cabo, o que interessava era conseguir o que os mesureiros desejavam.

 (palavras e seu significado, sem qualquer propósito - ou talvez não...)

domingo, 20 de janeiro de 2013

T de tronco

T(tê)

T de tantos T de triste T de todos
T de tudo ou de nada
T a tecer em sua torre o
Tempo.

Há toiros a pastar nas margens do T
há um Cristo que traz um T às costas
tábua onde talho o canto
meu talvez minha taça: T de tágide.

E tudo é tema teia tentação
tudo é ponto de in-
terrogação. Tudo é tempo a tecer
em sua torre o
T.

Manuel Alegre

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Paisagem alentejana e poesia (no 1º dia do ano)


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrever tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilha sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa - Mensagem

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu-me dizer adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

MANUEL ALEGRE

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Chamatea


Música e interpretação do melhor que se faz, num feliz encontro de culturas.