Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Bosque e poesia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

NATÁLIA CORREIA

domingo, 17 de março de 2013

Paisagem com nuvens e poesia

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.

Camilo Pessanha

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Mar


Construi uma casa no mar.
Com portal para o vento e um terraço onde escuto o grito do albatroz
ou recolho o polén das estrelas.
Plantei nas ondas uma árvore. São peixes
as pequeníssimas folhas desta árvore
que sinto crescer como um amigo.
Todos os móveis da casa são de água. Densa,
vermelha, filha de um vulcão,
ou leve, clara, irmã do linho.
Os tapetes têm a cor de antigos versos que elogiam o mar.
Canções, odes, barcarolas. De um tempo
em que o sol emprenhava as corças numa cama de folhas
e onde agora é deserto.
Nessa casa de água, escrevo. E, para o teu poema,
lanço a minha rede. Nela vêm, doirados, ofegantes, vivos,
os cardumes de sílabas.

Joaquim Pessoa

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Salamaleques

Sua Excelência Meretíssima entrou e toda a gente o tratou com uma polidez exagerada e se curvou com gestos reverentes. Os rapapés e as reverências continuaram porque, ao fim e ao cabo, o que interessava era conseguir o que os mesureiros desejavam.

 (palavras e seu significado, sem qualquer propósito - ou talvez não...)

domingo, 20 de janeiro de 2013

T de tronco

T(tê)

T de tantos T de triste T de todos
T de tudo ou de nada
T a tecer em sua torre o
Tempo.

Há toiros a pastar nas margens do T
há um Cristo que traz um T às costas
tábua onde talho o canto
meu talvez minha taça: T de tágide.

E tudo é tema teia tentação
tudo é ponto de in-
terrogação. Tudo é tempo a tecer
em sua torre o
T.

Manuel Alegre

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Paisagem alentejana e poesia (no 1º dia do ano)


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrever tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilha sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa - Mensagem

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu-me dizer adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

MANUEL ALEGRE

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Chamatea


Música e interpretação do melhor que se faz, num feliz encontro de culturas.

domingo, 21 de outubro de 2012

SONETO

Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Carlos de Oliveira

sábado, 13 de outubro de 2012

Mina

Foi a primeira vez que entrei numa mina. Pode-se imaginar como é penoso trabalhar num ambiente tão pouco adaptado à vida humana. 
A mina, localizada em Logrosán, foi desativada há algumas décadas. Mas, está a ser recuperada, em parte, como atração turística, integrada no Geoparque Villuercas, Ibores, Jara, no extremo sudeste da província de Cáceres, Extremadura espanhola. Apenas uma pequena parte é visitável, uma vez que a maior parte das galerias se encontram inundadas.
Visita obrigatória ao museu da mina, instalado provisoriamente num edifício em Logrosán.

Ali se explorou o mineral fosforita, que se encontra sob a forma de filão, entre rochas metamórficas - xistos.

domingo, 30 de setembro de 2012

Hoje apetece-me...

. ...ouvir António Zambujo e a sua "estória" marota. Extraordinário o acompanhamento da guitarra portuguesa e do cavaquinho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza num dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que não me cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira