terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Paisagem alentejana e poesia (no 1º dia do ano)
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrever tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente da minha vontade.
Alberto Caeiro
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Fernando Pessoa e heterónimos
sábado, 29 de dezembro de 2012
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Nevoeiro
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilha sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Fernando Pessoa - Mensagem
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilha sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Fernando Pessoa - Mensagem
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Fernando Pessoa e heterónimos
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
E ALEGRE SE FEZ TRISTE
Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu-me dizer adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
MANUEL ALEGRE
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu-me dizer adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
MANUEL ALEGRE
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Chamatea
Música e interpretação do melhor que se faz, num feliz encontro de culturas.
domingo, 25 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
SONETO
Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.
Carlos de Oliveira
Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.
Carlos de Oliveira
sábado, 13 de outubro de 2012
Mina
Foi a primeira vez que entrei numa mina. Pode-se imaginar como é penoso trabalhar num ambiente tão pouco adaptado à vida humana.
A mina, localizada em Logrosán, foi desativada há algumas décadas. Mas, está a ser recuperada, em parte, como atração turística, integrada no Geoparque Villuercas, Ibores, Jara, no extremo sudeste da província de Cáceres, Extremadura espanhola. Apenas uma pequena parte é visitável, uma vez que a maior parte das galerias se encontram inundadas.
Visita obrigatória ao museu da mina, instalado provisoriamente num edifício em Logrosán.
Ali se explorou o mineral fosforita, que se encontra sob a forma de filão, entre rochas metamórficas - xistos.
domingo, 30 de setembro de 2012
Hoje apetece-me...
.
...ouvir António Zambujo e a sua "estória" marota.
Extraordinário o acompanhamento da guitarra portuguesa e do cavaquinho.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
SONETO
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza num dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que não me cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza num dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que não me cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira
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Carlos de Oliveira,
poesia
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Actuação escrita
Pode-se
escrever
Pode-se
escrever sem ortografia
Pode-se
escrever sem sintaxe
Pode-se
escrever sem português
Pode-se
escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se
escrever sem saber escrever
Pode-se
pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se
pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se
pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se
escrever sem caneta
Pode-se
sem caneta escrever caneta
Pode-se
sem escrever escrever plume
Pode-se
escrever sem escrever
Pode-se
escrever sem sabermos nada
Pode-se
escrever nada sem sabermos
Pode-se
escrever sabermos sem nada
Pode-se
escrever nada
Pode-se
escrever com nada
Pode-se
escrever sem nada
Pode-se
não escrever
Pedro
Oom
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
PASTELARIA
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny
terça-feira, 14 de agosto de 2012
SONETO FIEL
Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dubas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.
O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.
As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.
O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.
Carlos de Oliveira
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Carlos de Oliveira,
poesia
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
![]() |
| Rua de Évora |
Canção a Évora
Évora que não és minha
E que eu gostava de ter:
Moira cativa e rainha,
Que não pude converter!
Não tenho nas minhas veias
Nem o templo de Diana,
Nem a praça de Geraldo,
Nem a brancura redonda
Da água das tuas fontes…
Tenho montes,
Vinho maduro e granito,
E esta certeza de ser
Filho de Cristo e de Judas.
Ah! Se eu pudesse mudar,
Já que tu, moira, não mudas!...
Miguel Torga
segunda-feira, 30 de julho de 2012
A ILHA
A ilha era
deserta e o mar com medo
de tanta
solidão já te sonhava:
ia em
vento chamar-te para longe
e longamente
em espuma te esperava.
À cinta dos
rochedos atirava
na grande
madrugada adormecida,
já saudosos
de ti, os braços de água,
sem ter
acontecido a tua vida.
Sim, meu
amor, antes de Zarco vir
provar o
sumo e o travo à solidão
no litoral
de pedra pressentida
o mar
imaginava esta canção.
E as lúcidas
gaivotas desse tempo
talhavam
como um voo o teu amor:
o início de
lava e sal que deixa
(talvez)
neste poema algum esplendor.
Carlos de
Oliveira
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Carlos de Oliveira,
poesia
quarta-feira, 25 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
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