Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

domingo, 30 de setembro de 2012

Hoje apetece-me...

. ...ouvir António Zambujo e a sua "estória" marota. Extraordinário o acompanhamento da guitarra portuguesa e do cavaquinho.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza num dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que não me cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Actuação escrita



Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

Pedro Oom

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny

terça-feira, 14 de agosto de 2012


















SONETO FIEL

Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dubas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.

Carlos de Oliveira

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Rua de Évora

Canção a Évora

Évora que não és minha
E que eu gostava de ter:
Moira cativa e rainha,
Que não pude converter!

Não tenho nas minhas veias
Nem o templo de Diana,
Nem a praça de Geraldo,
Nem a brancura redonda
Da água das tuas fontes…

Tenho montes,
Vinho maduro e granito,
E esta certeza de ser
Filho de Cristo e de Judas.

Ah! Se eu pudesse mudar,
Já que tu, moira, não mudas!...

Miguel Torga

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A ILHA

A ilha era deserta e o mar com medo
de tanta solidão já te sonhava:
ia em vento  chamar-te para longe
e longamente em espuma te esperava.

À cinta dos rochedos atirava
na grande madrugada adormecida,
já saudosos de ti, os braços de água,
sem ter acontecido a tua vida.

Sim, meu amor, antes de Zarco vir
provar o sumo e o travo à solidão
no litoral de pedra pressentida
o mar imaginava esta canção.

E as lúcidas gaivotas desse tempo
talhavam como um voo o teu amor:
o início de lava e sal que deixa
(talvez) neste poema algum esplendor.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 25 de julho de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Vegetal

TARDE

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira

domingo, 8 de julho de 2012

Mar

INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 29 de junho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Olival


PAISAJE

El campo
de olivos
se abre y se cierra
como un abanico.
Sobre el olivar
hay un cielo hundido
y una lluvia oscura
de luceros frios.
Tiembla junco y penumbra
a la orilla del rio.
Se riza el aire gris.
Los olivos,
están cargados
de gritos.
Una bandada
de pájaros cautivos,
que mueven sus larguísimas
colas en lo sombrío.

Federico Garcia Lorca

domingo, 17 de junho de 2012

Cegonha

Também é tempo de cegonhas. Já fazem parte das paisagens rurais e urbanas.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Xisto

A perfeição geológica nas "folhas" de xisto.

quinta-feira, 7 de junho de 2012