PASTELARIA
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
SONETO FIEL
Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dubas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.
O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.
As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.
O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.
Carlos de Oliveira
Etiquetas:
Carlos de Oliveira,
poesia
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
![]() |
| Rua de Évora |
Canção a Évora
Évora que não és minha
E que eu gostava de ter:
Moira cativa e rainha,
Que não pude converter!
Não tenho nas minhas veias
Nem o templo de Diana,
Nem a praça de Geraldo,
Nem a brancura redonda
Da água das tuas fontes…
Tenho montes,
Vinho maduro e granito,
E esta certeza de ser
Filho de Cristo e de Judas.
Ah! Se eu pudesse mudar,
Já que tu, moira, não mudas!...
Miguel Torga
segunda-feira, 30 de julho de 2012
A ILHA
A ilha era
deserta e o mar com medo
de tanta
solidão já te sonhava:
ia em
vento chamar-te para longe
e longamente
em espuma te esperava.
À cinta dos
rochedos atirava
na grande
madrugada adormecida,
já saudosos
de ti, os braços de água,
sem ter
acontecido a tua vida.
Sim, meu
amor, antes de Zarco vir
provar o
sumo e o travo à solidão
no litoral
de pedra pressentida
o mar
imaginava esta canção.
E as lúcidas
gaivotas desse tempo
talhavam
como um voo o teu amor:
o início de
lava e sal que deixa
(talvez)
neste poema algum esplendor.
Carlos de
Oliveira
Etiquetas:
Carlos de Oliveira,
poesia
quarta-feira, 25 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Vegetal
TARDE
A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.
Carlos de Oliveira
A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.
Carlos de Oliveira
Etiquetas:
Carlos de Oliveira,
poesia
domingo, 8 de julho de 2012
Mar
INSCRIÇÃO
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Etiquetas:
poesia,
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Descansando...
sexta-feira, 29 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
Pescador e patos
sábado, 23 de junho de 2012
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Olival
PAISAJE
El campo
de olivos
se abre y se cierra
como un abanico.
Sobre el olivar
hay un cielo hundido
y una lluvia oscura
de luceros frios.
Tiembla junco y penumbra
a la orilla del rio.
Se riza el aire gris.
Los olivos,
están cargados
de gritos.
Una bandada
de pájaros cautivos,
que mueven sus larguísimas
colas en lo sombrío.
Federico Garcia Lorca
domingo, 17 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
quinta-feira, 7 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Orquídeas e poesia
| As minhas orquídeas |
Terraço aberto
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
António Ramos Rosa
Etiquetas:
António Ramos Rosa,
poesia
sábado, 19 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















