Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Medronheiro

No jardim só o medronheiro está florido. É janeiro e todas as outras plantas aguardam a chegada da primavera para exibirem as suas flores.
Só o medronheiro está florido e, ao mesmo tempo, os seus frutos amadurecem.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Apontamentos

Hoje de manhã, na Ponte Vasco da Gama: muitos flamingos nas salinas do Samouco.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tronco

Espesso, rugoso, suportando outras formas de vida.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Gatos

Era uma família numerosa que se alimentava ao sol. Este interrompeu a refeição para me olhar de frente talvez curioso por alguém se preocupar a fotografá-lo. 
É sabido que os gatos são curiosos. Mas ao contrário do ditado, a curiosidade não o matou.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Dia Santo

Dia de sol e de Natal;
Andam guerras no mundo e dói-me a vista;
Mas, com Deus no Marão sem neve, não há mal
Que resista.

De mais, fora do tempo este latim
Que o padre Bento sabe, basta
Para me transcender a mim
E a quantas mais notícias o correio arrasta.

MIGUEL TORGA

Em S. Martinho da Anta, Natal de 1940


Hoje também está dia de sol e não me consta que haja neve no Marão.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Choça

Numa escola que já não é escola, certamente porque já há poucas ou nenhumas crianças na aldeia, fizeram uma réplica da choça que já foi habitação e também abrigo para o gado. É mais pequena que a original e não se entende a intenção desta construção quando, a algumas dezenas de metros se encontram as verdadeiras, embora algumas em adiantado estado de degradação. Seria para fins didáticos?
Como das crianças, neste espaço, só existem as lembranças, tornei-a numa imagem um pouco fantasmagórica.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menangem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão de um campo de batalha!

Florbela Espanca

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Buraco

De repente, reparei no muro onde a pintura começa a dar sinais de desgaste. Um buraco no muro, sublinhado por uma pedra. 
Que interesse tem uma imagem destas? Afinal trata-se apenas de uma forma de drenar a água da chuva de um pátio. 
No entanto, para lá da funcionalidade, fica a beleza das texturas e dos contrastes de cor.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Nascer do sol

No dia 26 de Outubro, no Alentejo. Com o passar do tempo, as condições meteorológicas agravaram-se, registando-se um grande temporal, com vento e chuva muito fortes.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Garça

Garça repousando na água, aproveitando uma área de pouca profundidade da albufeira. A quietude da água e a luz do pôr do sol contribuíam para criar uma atmosfera irreal, com a sombra da garça definindo uma notável simetria.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Jogo

Uns jogam petanca e outros observam. As marcas da aculturação dos emigrantes num jogo francófono.

sábado, 15 de outubro de 2011



As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia.
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão de pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

António Ramos Rosa

domingo, 2 de outubro de 2011

Crepúsculo

porque desastrada mão me estendo
e procuro    sem achar
o crepúsculo    o vazio estar
o transformar da tarde em vento

porque espreito    se cego vejo
o entardecer sereno
o bosque    o caudal ameno
da água que vibra sem desejo

calmo    fico olhando a tarde
o voo das aves sobre os insectos
e o ar anil que me repousa

e abaixo a mão que já não ousa
mostrar a serenidade dos afectos
em que a alma por vezes arde

Henrique Ruivo

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Nem com outrem nem por ti somente
cometas jamais ação de que
envergonhar-te possas.
E acima de tudo respeita-te
a ti próprio.

A justiça em atos e palavras
pratica-la-ás depois.

Pela menor das coisas não te habitues
a decidir-te sem refletir.

PITÁGORAS

sábado, 24 de setembro de 2011

Peixinhos vermelhos

A bica que jorrava da fonte criava ondulações, agitando a água límpida do tanque. Três peixinhos vermelhos nadavam quais baratas tontas no pequeno tanque, fugindo da minha sombra. Com uma ajuda, consegui fisgá-los.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Em dia de equinócio

Pôr do sol no dia 20 de Setembro de 2011
QUE É ANDAR O SOL LÁ FORA?

Que é andar o Sol lá fora?
É andar no céu subindo
um escarcéu de fogo vivo,
sacudindo e refulgindo
pepitas de ouro nativo?

Isso é Sol andar lá fora?

Será estarem-se abismando
cataratas de foliões,
ondas e ondas pulsando
no jogo das radiações?

Será isso o Sol lá fora?

Será somente um cansaço,
uma tépida roupagem,
um filtro, uma beberagem
que ande acenando no espaço?

Ou será um brinco de oiro
nas pupilas de quem se ama,
estertor de peixinho loiro
com um brilhante em cada escama?

Será isso o Sol lá fora?

Eu conheço um Sol doirado
que é das minhas relações,
não tem céu determinado,
não destila mel coado
nem propaga ondulações.
Não é bem Sol. É desejo,
desejo de que Sol fosse,
um cromático solfejo,
amargo de sabor doce.

Esse circular sem centro,
esse esperar a qualquer hora,
esse ilumnar por dentro,
será isso o Sol lá fora?

ANTÓNIO GEDEÃO

domingo, 18 de setembro de 2011

ACORDAR TARDE

todas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de sal tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

AL BERTO

sábado, 10 de setembro de 2011

Sé de Évora


nestes dias de calor
gostava de ir voando até à sé

sentar-me lá em cima no zimbório
e ouvir os sinos tocar

ver o casario da cidade à volta
e a velha cisterna lá muito em baixo

apanhar o sol das quatro horas
que entra pelos vitrais
e vai bater nas costas dos cónegos
que cantam sozinhos no coro

nestes dias de calor
gostava de subir ao mais alto da sé

e atirar-me de lá
de cabeça para baixo


Henrique Ruivo