Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Fundação de São Paulo. Foto da Wikipédia

"Destino e prestígio de São Paulo
Há quatrocentos anos, uma fundação religiosa modestíssima criava o germe de uma cidade nova numa região que se pode considerar desfavorecida. O solo era pobre, o clima áspero. O clima de São Paulo não tem,  de modo nenhum, a doçura tropical. Se por um lado possui os altos e baixos de temperatura que estimulam o organismo dos imigrantes europeus, por outro lado a garoa ou nevoeiro é molesto e provoca afecções respiratórias frequentes entre eles. São Paulo está mal colocado, afogado de certo modo nas perspectivas da sua expansão, entre a serra do Mar pelo norte e a serra da Cantareira pelo sul. São Paulo fica no meio de uma terra sulcada de rios, com várzeas pantanosas, alagadiças, que durante muito tempo foram um obstáculo a que o povoamento as invadisse, expandindo-se a cidade, não ao longo dos vales, mas sobretudo nos interflúvios, em retalhos de planalto que os rios separam uns dos outros. Mas São Paulo tem, para compensar, um sítio desvantajoso, uma situação extraordinariamente favorável, uma situação que é realmente a mesma da velha aldeia de Piratininga, uma "boca de sertão", uma cidade com um porto de mar próximo e um caminho sempre aberto para o interior. Isto fez a fortuna das suas "bandeiras" e um como anúncio da sua expansão comercial através de todo o imenso território do Brasil.
São Paulo não é uma cidade bonita. Permito-me apenas citar o depoimento de Aroldo de Azevedo que, se como paulista ama entranhadamente a sua terra, como geógrafo procura ser, mesmo com ela, objectivo. "Não tem nenhuma das belezas que fazem o encanto da cidade do Rio de Janeiro, nem o pitoresco da cidade pernambucana, nem o aspecto urbanizado de Belo Horizonte." É uma cidade americana na sua fisionomia, na estrutura da população, na medida que adoptou para todas as coisas, medida constituída  muito menos pelos valores espirituais do que pelo dinheiro, pela velocidade, pela eficiência, pelo culto destes três grandes deuses que dominam o mundo moderno. É uma cidade que certamente um europeu precisa de fazer um esforço para amar. Faltam-lhe aqueles pontos de referência para nós habituais, uma antiguidade, uma nobreza que só o tempo dá, uma riqueza de monumentos (esta cidade de há quatrocentos anos não tem uma velha igreja!); faltam-lhe os arrabaldes rurais que de certo modo tornam ainda, por contraste, mais vigorosa uma expressão urbana. Quem levantar voo de São Paulo para pousar em Lima, do outro lado dos Andes, notará um contraste extraordinário entre esta cidade que quase se diria banal e aquela rara flor de encanto ibérico, a que nenhum americanismo ainda murchou qualquer pétala.
Mas, se São Paulo não é uma cidade de que se goste, sobretudo nas impressões de um primeiro contacto, se é uma cidade desnorteante para aqueles valores urbanos a que um europeu está habituado, é, em todo o caso, para um homem de estudo, um grande tema de reflexão. São Paulo exemplifica talvez, com mais clareza do que qualquer outra cidade do mundo, um dos temas  da vida dos nossos dias: a atracção urbana, um cadinho de gentes, a possibilidade de trazer imigrantes de toda a parte fundindo-os, a despeito da desigualdade de raças, num tipo temperamental único; é um lugar exíguo onde as populações lutam pelo trabalho,  para onde os homens vêm porque acreditam que, tornando-se cidadãos desta cidade, redimem a miséria do seu passado. São Paulo é, nesse sentido, realmente um símbolo do Brasil de hoje: uma grande experiência humana, experiência cujos resultados não podem seguir-se sem inquietação, mas experiência realmente feita à escala das enormes proporções deste país e que os espíritos reflexivos não podem deixar de seguir com entusiasmo."

Orlando Ribeiro (1994). "São Paulo. Do Campo da Piratininga à Metrópole do Brasil". Opúsculos Geográficos. V Volume: Temas Urbanos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp 488-490.
(Artigo publicado pela primeira vez em 1955)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

 O vulcão da Ilha do Fogo e a Chã das Caldeiras

"A Ilha do Fogo é o mais belo exemplo, no Oceano Atlântico, de um aparelho eruptivo completo, emergindo das ondas com a regularidade de um modelo clássico. Esse aparelho resultou da sucessão de várias fases, cada uma marcada na topografia da ilha por um conjunto de formas. O cone primitivo, truncado pelo cimo da Bordeira, tinha dimensões gigantescas e aparece rodeado de fiadas ou rosários de pequenos cones adventícios de cinzas e de lavas, montículos regulares, com ou sem cratera conservada, que de qualquer ponto que a vista abranja se contam por dezenas.
A Chã das Caldeiras formou-se posteriormente a esta fase eruptiva, por um abatimento circular gigantesco da parte superior do cone primitivo. A ilha perdeu altura; mas a actividade eruptiva; mas a actividade eruptiva renasceu no interior da depressão assim formada. A acumulação de cinzas, escórias e lavas edificou o cone secundário, conhecido geralmente por "Vulcão", pois conserva, com admirável frescura, a forma destes acidentes. Em todo o caso, não se conhece nenhuma erupção deste cone. A chaminé vulcânica deve estar obturada por um tampão de lava, que só uma erupção violenta poderá remover. A pressão dos gases internos vai abrindo outros caminhos: a série de fendas radiais profundas que rodeiam o cone e deram saída aos materiais eruptivos que formam os pequenos cones adventícios do interior da Chã. Esta espécie de "filhos do vulcão" constitui, na história das erupções da ilha, a sua última geração - a única com que os habitantes parece terem travado conhecimento.
Por estas fendas se dá a subida de lavas de bolsas profundas, que ao fim de algumas semanas se esvaziam."

(Texto datado de 1952)

Orlando Ribeiro (1990). "As Erupções do Fogo e a Vida na Ilha". Opúsculos Geográficos. III Volume: Aspectos da Natureza. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. p. 26

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Meseta Ibérica 

"O Mediterrâneo é, como o nome indica, um mar entre terras, uma profunda chanfradura que articula as três partes do Velho Mundo. Mas, mais exactamente que um mar entre terras, é "um mar entre montanhas". Os sedimentos acumulados durante a era secundária, numa antiga e persistente depressão terrestre, foram, na era terciária, violentamente comprimidos entre as moles que se estendiam de um e de outro lado do geossinclinal: ao sul, o grande maciço tabular africano, ao norte, os fragmentos arrasados da cordilheira hercínica. Desse jogo, cuja história complexa não vem para o caso recordar aqui, resultou a formação de uma série de cordilheiras, parte emersas e soldadas aos continentes, parte submersas ou meio submersas, levantando-se as cumeadas sob a forma de arcos e alinhamentos insulares. Entre as cordilheiras a água preencheu os rasgos mais abertos; o Mediterrâneo é um mar profundo e, ao contrário do Mar do Norte ou do Báltico, quase desprovido de plataforma continental. As suas arribas descaem bruscamente para grandes profundidades e, se fosse possível secá-lo, ver-se-ia exagerar brutalmente o vigor dos desníveis sobranceiros ao litoral.
Os enrugamentos que deram origem às cordilheiras mediterrâneas - geralmente chamados alpinos, visto que os Alpes constituem o seu paradigma e como que o nó de todo o sistema - englobaram entre as dobras de material recente alguns fragmentos de maciços antigos, umas vezes soerguidos e afectados por deslocações, outras ainda envoltos em coberturas sedimentares secundárias e terciárias. As suas formas contrastam com o vigoroso recorte das montanhas novas: cimos arrasados, relevos em blocos que, na verdade, são fragmentos de planalto desnivelados por falhas ou extensões intermináveis, lisas como uma mesa, a que se deu em Espanha o expressivo nome de mesetas. O maciço antigo ibérico e a maior extensão da cordilheira do Atlas têm esta origem: pela extensão, altitude e posição interior pertencem antes a um mundo "continental" e escapam em grande parte à dominante mediterrânea."

Orlando Ribeiro (1987). Mediterrâneo. Ambiente e Tradição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. p.42-43

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

"A taipa na expansão portuguesa
Pela facilidade e rapidez da construção, a taipa teve larga fortuna na expansão portuguesa. Nas regiões tropicais húmidas, em virtude da alteração profunda das rochas, o barro é material quase tão usado como a madeira. Na África tropical e na América, o emprego generalizado do pilão facilitou a transmissão desta técnica às populações indígenas. É provável que a difusão da taipa esteja ligada ao predomínio da gente do Sul que, entre outros indícios, o próprio parentesco entre o português do Brasil e os falares meridionais, geralmente admitido pelos filólogos, parece indicar. (...)
Ao acaso de leituras e observações, como achegas para um estudo sistemático deste importante assunto, juntam-se alguns exemplos da difusão da taipa em três partes do mundo.
Conta Diogo Gomes, criado do Infante D. Henrique e navegando por conta dele (meados do século XV), que certo rei da Gâmbia lhe pedira um sacerdote e um fidalgo que o instruíssem na fé cristã, um açor ("uma ave que apanha as outras aves", coisa que muito o maravilhara), vários animais domésticos e "dois homens que soubessem fazer casas e cercar sua cidade de taipa"; as casas do lugar eram "feitas de canas marinhas cobertas de colmo" e é provável que o chefe indígena visse a rapidez e a segurança com que os Portugueses se abrigavam detrás das muralhas construídas daquele modo. (...)  (Em Angola) o monte de São Miguel, que defendia Luanda, depois de precariamente protegido por uma barricada de pipas de areia, foi fortificado "de barro, taipa e adobes" nos meados do século XVII; revestiu-se depois essa obra de alvenaria, mas ainda se fizeram de taipa mais um baluarte e uma cortina de muralha.
O uso da taipa foi levado para Goa, onde concorre com o barro amassado à mão em faixas sobrepostas, geralmente empregado nas casas hindus. O processo tem em concanim um nome de origem portuguesa - taip - que não deixa qualquer dúvida sobre a sua introdução. Seriam de taipa todas as casas humildes de Velha Goa; quando o aumento da tonelagem dos galeões e o fim da supremacia naval portuguesa no Índico, no século XVII, provocaram o declínio do porto e com ele o da gloriosa e opulenta cidade, esta começou aos poucos a ser abandonada. Derruídos os telhados, as paredes de taipa não resistiram à violência das chuvas de monção, ao passo que as de pedra (laterite) foram exploradas, como uma sorte de "pedreiras" de cantaria, para as construções de Pangim e de Margão; ainda hoje se vê, na área das ruínas da velha cidade, muita laterite aparelhada nos muros de propriedades rústicas. As casas de taipa reverteram lentamente ao barro de que eram feitas e, arrastadas pelas enxurradas, delas não resta qualquer vestígio. Isto explica o estranho aspecto que conserva a grande cidade, reduzida a pouco mais que os edifícios religiosos, uns preservados, outros em ruína. Mas a taipa já antes havia sido empregada no Oriente e com ela se levantariam as muralhas das primitivas feitorias. (...)
O mesmo processo de construção foi usado em Macau: "muro de taipa" da cidade, muro do forte de S. Paulo, com alicerces de pedra e, a seis palmos do chão, "só de terra a qual misturada com alguma palha e batida com batedores tão fortemente que fica fortíssimo..."
O emprego da taipa era geral no Brasil, substituindo, quando um estabelecimento ganhava importância e se consolidava, o das palhotas. Foi o que sucedeu em Olinda por 1537. (...) Os jesuítas ensinaram os índios a servirem-se da taipa na construção de São Paulo, quando fundaram a cidade (1554); assim se levantaram as primeiras casas e os muros que defendiam a aglomeração. Nos princípios do século XIX, a maioria das habitações, tanto térreas como de andar, eram "construídas de taipa muito sólida"; o processo divulgara-se tanto que era geral no interior dos estados de São Paulo e de Goiaz. (...) Nos arredores da grande metrópole, inteiramente refeita nos últimos anos, podem ver-se, como relíquia cuidadosamente conservada pelo serviço do património histórico, os restos da igrejinha seiscentista de São Miguel, cujas paredes foram construídas desse modo."

Orlando Ribeiro. Geografia e Civilização. Temas Portugueses. Lisboa: Livroz Horizonte. pp.42-44

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Praça do Giraldo, Évora.

"Comparando Évora, por exemplo, com Toledo, pois esta cidade espanhola encontra em Évora talvez a cidade ibérica com a qual tem maior identificação pela densidade dos valores artísticos, e também comparando Toledo com Braga. cidades semelhantes pela importância eclesiástica, sendo hoje Braga um centro em plena evolução industrial e activa modernização, verifica-se que Toledo apresenta, fora da época turística, sinais de enfraquecimento da vitalidade urbana e, embora sendo capital da província, Talavera de la Reina, centro industrial, é mais importante.
Évora, ao contrário de Toledo, não apresenta sinais evidentes de perda de vitalidade como centro urbano e, analisando um pouco em pormenor a Rua da Selaria, rua que atravessa a muralha romana, as Alcáçovas de Cima e de Baixo, com duas torres mandadas destruir pelo Infante D. Henrique, confirma-se esta ideia. Esta rua apresenta um traçado sensivelmente este-oeste, correspondendo ainda à Decumana da cidade romana e é uma rua onde se mergulha na história mais antiga de Évora. Algumas das actividades que nela se desenvolvem evidenciam a sua vitalidade: um restaurante de luxo, um pátio com antigas cenas de cavalaria, uma papelaria, uma loja de roupa, três lojas de artesanato,, duas lojas de antiguidades (em grande parte de fabrico recente), duas pensões residenciais, dois restaurantes, uma boutique com roupa de senhora e artesanato, mas, ao mesmo tempo, três médicos (dois especialistas), duas lojas de acessórios de automóveis e motocicletas, uma companhia de seguros, um banco, uma loja de óptica e fotografia, duas ourivesarias, uma de quinquilharia, uma de roupa fina, um cabeleireiro, e já na esquina para a Praça do Giraldo, a primeira livraria de Évora  que tem, também, secção de perfumaria e de brinquedos.
Isto é, tudo ao contrário de uma cidade morta, de uma cidade histórica. Enquanto a Évora antiga, graças ao bom gosto de várias pessoas, nomeadamente do Cap. Celestino David, fundador do grupo pró-Évora, mantém um aspecto limpo e branco, outras cidades descaracterizaram-se. Évora é uma cidade tranquila que, com os seus recantos, é preciso ir  descobrindo pouco a pouco, é uma das cidades mais atraentes do país.
Mas Évora é também algo diferente. Por certo que os seus 30 000 habitantes de há 30 anos se transformaram em 50 ou 60 000, com a enorme proliferação dos subúrbios; mas esses subúrbios são ainda particularmente inorgânicos; quase não têm comércio, nem ocasional nem quotidiano, alguns têm indústria. Além da farmácia, da padaria, são bairros desmunidos de equipamentos para corresponder às necessidades crescentes da população.
O estudo de Évora parece justificar-se perfeitamente desde que se inicie com o desenvolvimento das funções da sua parte limitada pelas muralhas. Jorge Gaspar mostrou que Évora não hierarquiza o Alentejo e que a área de influência da cidade coincide com a área do seu distrito; portanto, não se pode atribuir a Évora, 3ª, 4ª ou 5ª cidade do país, o papel regional do Porto, que é a cidade de todo o Norte, ou que têm cidades com uma forte expansão como Coimbra ou Braga.
Évora é, todavia, uma cidade viva."

Orlando Ribeiro (1994). "Évora. Sítio, Origem, Evolução e Função de uma Cidade". Opúsculos Geográficos. V Volume. Temas Urbanos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp. 336-337.
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Nota: texto publicado pela primeira vez em 1986.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

O Tejo e a margem esquerda, vistos do Cais das Colunas. Lisboa.
"A posição de Lisboa é única não só em Portugal mas em toda a fachada atlântica da Península. Cadiz aperta-se no seu rochedo sem água, na extremidade de uma restinga que lhe não deixa espaço ao desenvolvimento. Sevilha tem uma situação de estuário que, com o aumento da tonelagem, se tornará pouco favorável à grande navegação. Ambas fazem parte duma frente marítima tão velha como as mais velhas navegações mediterrâneas, mas deixam atrás de si terras escassamente povoadas e tardiamente arroteadas, excêntricas ao conjunto peninsular. Vigo, o grande porto actual da Espanha atlântica, abre-se para um país montanhoso, excêntrico também, por muito tempo de economia pobre e sonolenta e de acesso difícil para o interior. Lisboa, no estuário do Tejo, ocupa no litoral português a sua chanfradura mais profunda, adjacente a terras baixas e planas por onde correm faixas naturais de trânsito para  o Norte e o Sul do país. O próprio rio era uma via acessível quase até à fronteira, utilizada até que o caminho-de-ferro lhe absorveu o tráfico. Ainda na segunda metade do século XIX as minas de ferro de Alcântara escoavam a produção, transportada em barcaças que navegavam nas águas médias, pelo porto de Lisboa. Setúbal, em posição semelhante e menos favorável, está perto demais para poder disputá-la. O Porto, ou qualquer dos portos do Norte, com o anfiteatro de montanhas próximas, são cidades mais locais, embora tenham no hinterland o maior peso demográfico da orla atlântica. O Douro e o Mondego, navegáveis até longe, não possuíam contudo os recursos do Tejo: o cachão da Valeira, no Douro, só se rompeu no princípio do século XIX, o que permitiu a navegação até Barca de Alva e a extensão da vinha para Leste; o Mondego não parece ter sido acessível acima da Raiva, a montante de Penacova, onde o seu curso se "enovela" numa sucessão de harmoniosos meandros. Os portos do Alentejo tinham atrás de si a área mais despovoada do país; os do Algarve, uma região cedo desperta para a vida de relações marítimas, mas tão isolada do conjunto nacional que formava nele um reino à parte. Na situação singular de Lisboa está contido o seu destino."

Orlando Ribeiro (1994). "Lisboa, Génese de uma Capital". Opúsculos Geográficos. V Volume. Temas Urbanos. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian. pp 73-74.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Vista parcial de Elvas, a partir do castelo
"Entre o Tejo e o Guadiana, onde a peneplanície e os pedimentos abrem largos corredores entre relevos inexpugnáveis como que "insulados", as vilas alcandoradas do Alto Alentejo têm uma estrutura urbana semelhante: poderosos e pequenos castelos medievais e, com o extravasar para além das muralhas, vastos baluartes erguidos durante a Restauração, com fortes panos de muralhas redentes a Vauban: Marvão, Castelo de Vide, Alegrete, Portalegre, Campo Maior, mais que todas Elvas, que barrava o caminho de Évora a Lisboa e, por isso, mais poderosamente fortificada, a própria Évora várias vezes ameaçada, e muito mais, como Estremoz, Vila Viçosa... O sistema de fortificações abrangia metade da largura do País, constituindo uma verdadeira família urbana, com o núcleo do castelo dionisino, às vezes reforçado por D. Manuel, e um espaço mais vasto cingido pelos panos do muro e revelins da Restauração.
Um dos exemplos mais esclarecedores das vilas alcandoradas que se desenvolveram progressivamente é Castelo de Vide, onde a Praça Alta limita e defende um bairro de traçado geométrico e onde o perímetro urbano representa cerca de dez vezes a área das suas muralhas medievais. Poderiam multiplicar-se exemplos: Marvão, verdadeiro ninho de águias, com o seu poderoso castelo  medieval  e a muralha antiga reforçada por gigantesca cornija quartzítica, apenas recebeu muralhas na Restauração no declive em que a povoação se desenvolve, sendo este o único lado vulnerável. Évora, cercada em parte de muralhas medievais hoje desafogadas, recebeu, do lado oposto, um complexo sistema de revelins.
Em parte alguma como em Elvas se lê claramente uma cidade de núcleo muçulmano, cintada sucessivamente de novas muralhas: castelejo mouro, cerca muçulmana atravessada por um arco elegante, adro da Sé, desafogo interior e praça que foi centro social e de comércio à portas da cerca fernandina. Um sistema de fossos, baldio de gado dos vizinhos, casamatas, passagens cobertas, portas sucessivas e às vezes desencontradas, fazem desta cidade - vizinha e inimiga de Badajoz - um poderoso baluarte quase inexpugnável. À roda da cidade, mas sem penetrar nela, desenrolou-se na Restauração a batalha das Linhas de Elvas (1659), em rasa campanha, deixando a aglomeração à margem dos combates, não ousando os mais poderosos exércitos espanhóis acometer à escada, visto a altas muralhas e os fossos que as antecedem constituírem fortes obstáculos e os baluartes, os revelins e torres nos ângulos mortos estarem sempre poderosamente artilhados. Assim, não admira que Elvas se entregassem sem combates em 1580 e que nunca tenha, antes ou durante as longas lutas com a Espanha, sido tomada pela força. Dois poderosos fortes defendem a cidade pelo exterior: no maior - o forte da Graça - o próprio monte foi afeiçoado em revelins que regularizam o seu contorno natural."

Orlando Ribeiro (1994). "Achegas para o Estudo das Vilas Alcandoradas do Alto Alentejo". Opúsculos Geográficos. V Volume: Temas Urbanos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp345-348.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

RTP - ORLANDO RIBEIRO

RTP - ORLANDO RIBEIRO

Mês de Orlando Ribeiro

Montado de azinheiras

"O montado é uma mata rala e nunca um bosque cerrado. Resultante do crescimento espontâneo das árvores, tem na origem a razão do seu aspecto. Sobreiros e azinheiras faziam parte de um maquis complexo de estevas, urzes, giestas e aroeira, em que medravam esparsos e afogados. Foram as grandes arroteias do fim do século passado* que, libertando as árvores do matagal envolvente, aumentaram a extensão do montado. Consoante se fez o desbaste, assim resultou para aquele uma fisionomia diferente. Nas melhores terras, os barros ou solos argilosos e profundos, as boas colheitas e os pousios curtos tendem a reduzir o arvoredo, por ser um estorvo à lavoura. Hoje arranca-se em muitas herdades para facilitar o trabalho das máquinas agrícolas. Nas terras galegas, xistentas, pedregosas, delgadas, nas ondulações mais vigorosas do relevo, onde a lavoura passa de anos a anos, o montado chega a ter papel preponderante na economia. A seara é então subsidiária: faz-se porque é preciso lavrar para manter a terra limpa e evitar a regeneração do matagal. Lavrou-se, semeou-se: seja qual for o resultado, nunca ele representará prejuízo. Alguns tractos mais acidentados do Alentejo - a Serra de Portel, os relevos litorais de Grândola e do Cercal, as abas da Serra algarvia - mostram que, onde o terreno se alteia e se ondula, cortado de barrancos, o sobreiro e a azinheira ensombram cabeços e covas. E todos são concordantes em afirmar que, depois de se romperem as últimas charnecas, o arvoredo aumentou."

Orlando Ribeiro (1991). "O Campo e a Árvore em Portugal". Opúsculos Geográficos. IV Volume: O Mundo Rural. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp.75-76

*século XIX

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Flor da Rosa, concelho do Crato.
"A casa do Sul caracteriza-se tanto pela forma mais simples como pela função mais especializada: construção de um só piso, destinada apenas a habitação. No litoral da Beira e no vale baixo do Mondego, por oeste, nos plainos de Castelo Branco e do Alto Alentejo, por leste, a transição faz-se por uma casa ainda de andar, mas com escada interior de madeira, que já não resguarda gados, feno ou palha. Logo no Sul do Tejo, do lado da raia, no Norte da Estremadura, do lado do mar, já o tipo meridional é dominante.
Se a forma geral da casa é mais simples, são mais complexos e perfeitos os dispositivos destinados a assegurar a função exclusiva de habitação. O exterior mostra as paredes rebocadas e caiadas, às vezes ornadas de barras de cores vivas; aberturas frequentes também nas traseiras, embora faltem nas fachadas laterais; um poial de pedra, à entrada da porta, convida ao descanso pela fresca da tarde. Nem em construções secundárias se usa outra cobertura que não seja a telha. O telhado de quatro águas não é raro. Nos edifícios de taipa, as paredes são às vezes reforçadas por contrafortes salientes de pedra. Dentro, a cal branqueia também paredes e tabiques iluminados pela claridade que as vidraças deixam passar; o chão é de terra batida ou, mais geralmente, de ladrilho, de sobrado, calcetado com pedrinhas ou coberto de lajes. Um ripado de madeira, esteiras ou até um tecto de pranchas, isolam interiormente o telhado. A chaminé escoa o fumo, que já se não derrama pela casa, enegrecendo-a: nas noites frias de Inverno a família junta-se e come à lareira, em cadeiras baixas graciosamente ornamentadas de cores vivas."

Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. pp.93-94.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

"PAPEL DO OCEANO NA GEOGRAFIA PORTUGUESA

Um estudo do oceano na vida portuguesa podia ainda levar-se muito longe. Para quem vem do Mediterrâneo, onde há ilhas, como a Córsega, quase sem vida marítima, uma terra de rurais aparece, pela primeira vez, franjada de um litoral que formiga de gente e de trabalho. Mas, por importantes que apareçam, no quadro da economia nacional, as fainas do mar, elas não deixam de ser limitadas, fragmentárias, intermitentes, em confronto com o labutar permanente dos campos. Se a acção indirecta do Atlântico, cuja influência, trazida pelos ventos de oeste, cobre metade do País, é muito grande, o domínio marítimo está estreitamente confinado a uma orla costeira, que apenas no Noroeste se mostra contínua. Muitos locais de pesca, o sal, alguns areais adubados com sargaço ou marisco e ganhos assim para a cultura regular, parte muito importante  da subsistência das maiores cidades, um quinto do valor das exportações, eis o que o mar deu à economia portuguesa. Mas regiões inteiras são insensíveis à sua presença próxima. O alentejano desconhece-o na alimentação ou no trabalho; o saloio dos arredores de Lisboa dá por ele apenas quando, como em Colares, precisa de abrigar as vinhas dos ventos fortes e das partículas de água salgada.
É certo que, ainda há cinco séculos, o oceano se abriu à expansão nacional. Apesar disso, e de o português se afeiçoar ao trabalho noutros climas e ao convívio de outras gentes, a estrutura rural da Nação permanece intacta. Com razão ou sem ela, a fala do velho do Restelo foi entendida obscuramente pela massa rural. Revolvendo a leiva, alargando a seara, plantando, regando, adubando, crescendo mas agarrando-se ao chão que escasseia, este povo, donde saíram os avantureiros que abriram o caminho das outras partes do mundo. conserva-se preso ao torrão, como aquelas árvores que oferecem ao vento o grão de novas sementeiras mas cada vez mais afundam as raízes na terra."

Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. p 129
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Castanheiro. Serra de S. Mamede, Alto Alentejo
"MATOS E ARVOREDOS ATLÂNTICOS

À acção do oceano, que atenua o calor e a secura estivais e mantém chuvas abundantes, se deve que, através do Cantábrico, algumas espécies vegetais da Europa média alcancem o território português e aqui tenham o limite meridional da sua expansão. Estão neste caso as árvores de folha caduca que, no Norte de Portugal, formam os últimos povoamentos importantes. O carvalho alvarinho ou roble, a aveleira, o vidoeiro branco das montanhas, não ultrapassam a Cordilheira Central; o carvalho negral, o castanheiro, o ulmeiro ou negrilho, o amieiro, o choupo, o freixo, o plátano bastardo, o teixo, predominam no Norte ou reaparecem no Sul só com a altitude. Algumas urzes, giestas e fetos, últimos representantes da flora lenhosa comum à Europa atlântica, ainda se encontram no Algarve. As silvas desempenham, no Norte, o papel das piteiras e figueiras-da-India no Sul, e com elas se misturam no Mondego baixo; a hera reveste muros de granito musgoso ainda na Serra de Sintra.
Os reagentes mais seguros das condições atlânticas são o carvalho alvarinho, algumas espécies de tojos (Ulex nanus em especial) e o pinheiro bravo. O carvalho alvarinho está quase confinado ao Noroeste, não desce além do Mondego nem atravessa o território português, substituído, nos planaltos trasmontanos e na Cordilheira Central, pelo carvalho negral, menos exigente de humidade. O género Ulex está representado por dezanove das vinte e duas espécies que compreende, dessas são endémicas sete e cinco variedades; parece, assim, provável que os tojos se originassem no próprio litoral português. Formam grandes povoamentos no Minho, na Beira ocidental, no Norte da Estremadura, com marcada preferência pelos terrenos siliciosos, mas não se estendem até à fronteira e no Sul reaparecem, em estreita relação com o solo que preferem e a proximidade do mar, na Serra de Sintra, na península da Arrábida e na Serra de Monchique. No Norte são roçados para camas de gado e preparação de estrume, às vezes rodeados cuidadosamente de muros e até propagados pela cultura.
O pinheiro bravo, que uns autores supõem introduzido na Idade Média e outros árvore antiga, teve em todo o caso, a partir de D. Dinis, a sua enorme difusão. Próprio dos areais da beira-mar, no Norte, espalhou-se, graças ao rápido crescimento e ao grande poder invasor, por todo o Ocidente, até ao Sado, e na Beira atravessa, pelo vale do Mondego, o território português; sobe, nas montanhas, até 1100 m e vai ganhando, lentamente, áreas cada vez mais orientais."

Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. pp.101-102.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro


A aldeia trasmontana

Este tipo de aldeia "anda ligado aos campos abertos do Norte interior e às instituições comunitárias responsáveis pela sua organização. A aldeia é aglomerada num núcleo apenas ou em vários bairros próximos mas individualizados, providos cada um de seu nome, cujas casas umas vezes se tocam outras estão separadas por campos, lameiros, arvoredos ou logradouros e terrenos vagos. Mas a povoação não é totalmente cerrada: cada casa tem anexo um pátio na frente ou um quintal nas traseiras, ou abre dum lado para a rua, do outro para o campo. Como em todo o Norte, usa-se a casa de andar, para habitação, sendo o rés-do-chão reservado a curral, palheiro e o pátio a guarda do carro e utensílios agrícolas. As casas principais dispõem-se em roda de um amplo pátio interior. O fumo da lareira baixa escoa-se pelo telhado, enegrecendo o interior da  casa. Nas áreas de xisto emprega-se a cobertura de ardósia, na montanha o colmo, excelente protecção contra o frio.
As aldeias são não raro alongadas em vários sentidos, o seu crescimento faz-se tanto pelo núcleo principal, como pelos bairros que se formam em torno dele. No centro, a igreja com um largo ou adro espaçoso, ensombrado por negrilhos, que também se encontram em roda e até no interior da povoação, e cujas folhas são usadas como forragem para o gado. Num extremo ventoso a eira comum, onde os vizinhos se prestam mutuamente ajuda por ajuda, noutro lugar o forno, onde todos cozem à vez, em regra em sítio que abra para o campo, a corte do boi do povo, touro reprodutor pago e mantido por todos."

Orlando Ribeiro (1991). "Aldeia: Significação e Tipos". Opúsculos Geográficos. IV Volume: O Mundo Rural. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp.359-360.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro

Foto retirada do blogue Arquitectura D'Ouro. Casa de Granja do Tejo, Tabuaço.

"A "arte" do granito.

Um dos traços mais impressionantes da civilização do Norte de Portugal é certamente a mestria na construção de granito. Nas casas, nos muros, nos suportes, nos monumentos, a pedra constitui sempre o principal material de construção. Terrenos do maciço antigo dispõem de granito, de xisto e de quartzite. A última rocha é muito dura, pesada e difícil de trabalhar; o seu uso é limitado a raras povoações muito rústicas assentes nas suas próprias surgências, usando-se em muitas delas a par com o xisto. Este extrai-se das pedreiras em lascas que não carecem de nenhum preparo para se sobreporem, ou em placas de ardósia, usadas como cobertura em certas áreas de montanha e, nalgumas cidades (Porto, Lamego, Viseu, etc.), como revestimento de paredes de tabique. Mas é raro que o xisto dê grandes blocos resistentes: nas casas humildes recorre-se à madeira para os lintéis das portas, nas melhores às ombreiras de granito. Alguns castelos de xisto, grosseiramente aparelhados, têm também cunhais de granito, lavrados com outro esmero. O papel essencial que desempenham na construção pode avaliar-se pela pena aplicada a certos deles na Idade Média: retirar-lhes os cunhais; na falta deste apoio, o resto da muralha não tardava a ruir. Os reis castigavam assim os atrevimentos feudais de certos senhores, tão ciosos da sua autonomia como aqueles da centralização monárquica. Onde os dois materiais existem lado a lado, a preferência pelo granito é manifesta. Em terras xistentas pode dizer-se que qualquer construção importante - igreja, castelo ou solar - raro é que não empregue esta rocha. É portanto no granito que se devem procurar as expressões mais perfeitas, ou mais ousadas, de uma arquitectura popular de pedra."

Orlando Ribeiro, "A Civilização do Granito no  Norte de Portugal". Geografia e Civilização. Temas Portugueses. Livros Horizonte. pp. 13-14

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro


Conheci o Professor Orlando Ribeiro no ano lectivo de 1973/74, quando iniciei a frequência do 2º ano do curso de Geografia. Nesse ano, o programa da cadeira de Geografia Humana I consistia no estudo comparado da Região Mediterrânea e da Ásia das Monções. Lembro-me das aulas começarem com o Professor a colocar um pequeno maço de folhas de formato A5 na secretária e de nos chamar a atenção, como futuros professores, para a necessidade de uma preparação prévia das aulas. Também nos esclareceu sobre o significado do enorme olho desenhado num painel que pontificava sobre a porta, ao lado do quadro, parecendo lançar sobre nós o seu olhar azulado. Disse-nos que estava lá para nos lembrar da importância que a observação tem para os geógrafos.
Nesse ano tive a possibilidade de começar a contactar com a obra do Professor Orlando Ribeiro. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico e Mediterrâneo, Ambiente e Tradição eram as obras fundamentais para o estudo da região mediterrânea e que serviam de extensão ao fascínio que nos era transmitido pelo discurso produzido nas aulas. Os acontecimentos que alteraram a vida académica, a partir de Abril desse ano, impediram que o trabalho da cadeira chegasse ao fim.
Mais tarde, frequentei o seminário de Geografia Regional, orientado pelo Professor. Na distribuição do trabalho, coube-me a análise da Península Ibérica na obra Nouvelle Géographie Universelle de Elisée Reclus. Na sequência da apresentação do trabalho de seminário, o Professor convidou-me para colaborar com ele. Foi assim que, em 1977, se iniciou a minha colaboração em actividades que iam desde a preparação, para reedição de textos dispersos em várias publicações, bem como inéditos, e a recolha de informação necessária para as investigações que tinha em curso. Graças a este trabalho, tive o privilégio de conhecer uma grande parte da obra do Professor e, sobretudo, de me aperceber das suas preocupações com a divulgação e o ensino da Geografia.
Nos períodos em que não se encontrava doente, o Professor aproveitava para me orientar sobre os textos que deviam ser preparados para publicação e para estabelecer alguma sequência a fim de os integrar nas obras que tinha programado. Contudo, o trabalho final de compilação e de publicação foi realizado pela Professora Suzanne Daveau.
Em grande parte da sua vasta produção científica, o Professor aliou ao rigor próprio da investigação, uma escrita tão elegante, tão clara e acessível que podia ser entendida por leigos em questões geográficas, contribuindo assim de forma extraordinária para a divulgação do conhecimento da Geografia.
No que respeita ao ensino, muitas das suas obras foram e continuam a ser fundamentais para a compreensão do espaço geográfico. Muitos dos seus textos têm uma capacidade didáctica tão evidente, que têm sido incluídos em manuais de Geografia e de História para o ensino secundário.
Dessa colaboração também resultou algum trabalho que realizei sob a orientação do Professor,  seguindo algumas das sugestões que me foi fazendo sobre temas que também a ele lhe interessavam.
Fruto dos anos de convívio e de trabalho, fiquei com a consciência da grandeza da obra geográfica do Professor Orlando Ribeiro. Mas, também, da grandeza da sua condição humana e do notável humanista que, efectivamente, era: cientista internacionalmente prestigiado, pedagogo influente, conversador brilhante, poeta e apreciador de grandes poetas, melómano de apurado gosto pela música que partilhava connosco nas visitas e nas sessões de trabalho. 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mês de Orlando Ribeiro


No dia 16 de Fevereiro completam-se 100 anos do nascimento de Orlando Ribeiro.

 Ver Vida e obra

Dedico este mês ao grande geógrafo  e humanista, sendo aqui publicados alguns excertos das suas obras.

É esta a minha modesta homenagem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Musgo e poesia

Musgo sobre granito

 Hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde e
as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e o teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como é louca esta ,mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas

Al Berto

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Leituras

O exercício de leitura no grupo é um momento da semana muito interessante. Difícil é selecionar os textos. Têm de obedecer a alguns critérios, o principal dos quais é  serem relativamente pequenos para não ficar nada suspenso de  uma semana para a outra. Já se fizeram experiências interessantes, outras nem tanto. A poesia é muito apreciada pelo grupo e é muito frequente estar incluída no roteiro das sessões. O Romanceiro, histórias da tradição oral recolhidas no século XIX por Almeida Garrett, proporcionaram momentos bem agradáveis, sobretudo com a hilariante odisseia da Dona Ausenda, donzela que ficou prenhada depois de pôr a mão numa erva fadada.
Os contos são o género literário, conjuntamente com a poesia, que mais se adequa a esta atividade. São muito  apreciados os que têm um conteúdo divertido e que suscitam depois uma conversa sobre experiências relacionadas com a história. Como no caso do Luisinho, o menino  comilão e gorducho que ficou preso na janela da despensa*. Também o filho de uma das nossas amigas ficou preso na janela do sótão ao tentar entrar em casa a altas horas da noite.

*Conto de Luisa Costa Gomes, "A Janela da Despensa como Argumento Moral", Contos Outra Vez. Associação Portuguesa de Escritores.


sábado, 22 de janeiro de 2011

Gota de água

Condensação

A gota de água formou-se sobre o ramo do limoeiro. Não é da chuva, porque não tem chovido por estes dias. Quer dizer, tem havido precipitação mas daquela que resulta de um nevoeiro persistente que envolve tudo e vai depositanto sobre as superfícies pequenas gotículas, as quais, coalescendo, vão-se tornando cada vez maiores. E a gravidade vai fazendo com que a gota escorra lentamente, qual lágrima deslizando no rosto, até que cai e se perde na terra.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Trevo

É apenas um trevo vulgar, não um daqueles trevos que se diz serem da sorte e que têm quatro folhas o que, ao fim e ao cabo, é uma contradição ao próprio nome da planta.  Aparece espontaneamente nos vasos das minhas plantas. O orvalho cuidou de colocar pequenas gotículas de água na superfície das folhas.