segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
RTP - ORLANDO RIBEIRO
Mês de Orlando Ribeiro
| Montado de azinheiras |
"O montado é uma mata rala e nunca um bosque cerrado. Resultante do crescimento espontâneo das árvores, tem na origem a razão do seu aspecto. Sobreiros e azinheiras faziam parte de um maquis complexo de estevas, urzes, giestas e aroeira, em que medravam esparsos e afogados. Foram as grandes arroteias do fim do século passado* que, libertando as árvores do matagal envolvente, aumentaram a extensão do montado. Consoante se fez o desbaste, assim resultou para aquele uma fisionomia diferente. Nas melhores terras, os barros ou solos argilosos e profundos, as boas colheitas e os pousios curtos tendem a reduzir o arvoredo, por ser um estorvo à lavoura. Hoje arranca-se em muitas herdades para facilitar o trabalho das máquinas agrícolas. Nas terras galegas, xistentas, pedregosas, delgadas, nas ondulações mais vigorosas do relevo, onde a lavoura passa de anos a anos, o montado chega a ter papel preponderante na economia. A seara é então subsidiária: faz-se porque é preciso lavrar para manter a terra limpa e evitar a regeneração do matagal. Lavrou-se, semeou-se: seja qual for o resultado, nunca ele representará prejuízo. Alguns tractos mais acidentados do Alentejo - a Serra de Portel, os relevos litorais de Grândola e do Cercal, as abas da Serra algarvia - mostram que, onde o terreno se alteia e se ondula, cortado de barrancos, o sobreiro e a azinheira ensombram cabeços e covas. E todos são concordantes em afirmar que, depois de se romperem as últimas charnecas, o arvoredo aumentou."
Orlando Ribeiro (1991). "O Campo e a Árvore em Portugal". Opúsculos Geográficos. IV Volume: O Mundo Rural. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp.75-76
*século XIX
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
| Flor da Rosa, concelho do Crato. |
"A casa do Sul caracteriza-se tanto pela forma mais simples como pela função mais especializada: construção de um só piso, destinada apenas a habitação. No litoral da Beira e no vale baixo do Mondego, por oeste, nos plainos de Castelo Branco e do Alto Alentejo, por leste, a transição faz-se por uma casa ainda de andar, mas com escada interior de madeira, que já não resguarda gados, feno ou palha. Logo no Sul do Tejo, do lado da raia, no Norte da Estremadura, do lado do mar, já o tipo meridional é dominante.
Se a forma geral da casa é mais simples, são mais complexos e perfeitos os dispositivos destinados a assegurar a função exclusiva de habitação. O exterior mostra as paredes rebocadas e caiadas, às vezes ornadas de barras de cores vivas; aberturas frequentes também nas traseiras, embora faltem nas fachadas laterais; um poial de pedra, à entrada da porta, convida ao descanso pela fresca da tarde. Nem em construções secundárias se usa outra cobertura que não seja a telha. O telhado de quatro águas não é raro. Nos edifícios de taipa, as paredes são às vezes reforçadas por contrafortes salientes de pedra. Dentro, a cal branqueia também paredes e tabiques iluminados pela claridade que as vidraças deixam passar; o chão é de terra batida ou, mais geralmente, de ladrilho, de sobrado, calcetado com pedrinhas ou coberto de lajes. Um ripado de madeira, esteiras ou até um tecto de pranchas, isolam interiormente o telhado. A chaminé escoa o fumo, que já se não derrama pela casa, enegrecendo-a: nas noites frias de Inverno a família junta-se e come à lareira, em cadeiras baixas graciosamente ornamentadas de cores vivas."
Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. pp.93-94.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
"PAPEL DO OCEANO NA GEOGRAFIA PORTUGUESA
Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. p 129
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Um estudo do oceano na vida portuguesa podia ainda levar-se muito longe. Para quem vem do Mediterrâneo, onde há ilhas, como a Córsega, quase sem vida marítima, uma terra de rurais aparece, pela primeira vez, franjada de um litoral que formiga de gente e de trabalho. Mas, por importantes que apareçam, no quadro da economia nacional, as fainas do mar, elas não deixam de ser limitadas, fragmentárias, intermitentes, em confronto com o labutar permanente dos campos. Se a acção indirecta do Atlântico, cuja influência, trazida pelos ventos de oeste, cobre metade do País, é muito grande, o domínio marítimo está estreitamente confinado a uma orla costeira, que apenas no Noroeste se mostra contínua. Muitos locais de pesca, o sal, alguns areais adubados com sargaço ou marisco e ganhos assim para a cultura regular, parte muito importante da subsistência das maiores cidades, um quinto do valor das exportações, eis o que o mar deu à economia portuguesa. Mas regiões inteiras são insensíveis à sua presença próxima. O alentejano desconhece-o na alimentação ou no trabalho; o saloio dos arredores de Lisboa dá por ele apenas quando, como em Colares, precisa de abrigar as vinhas dos ventos fortes e das partículas de água salgada.
É certo que, ainda há cinco séculos, o oceano se abriu à expansão nacional. Apesar disso, e de o português se afeiçoar ao trabalho noutros climas e ao convívio de outras gentes, a estrutura rural da Nação permanece intacta. Com razão ou sem ela, a fala do velho do Restelo foi entendida obscuramente pela massa rural. Revolvendo a leiva, alargando a seara, plantando, regando, adubando, crescendo mas agarrando-se ao chão que escasseia, este povo, donde saíram os avantureiros que abriram o caminho das outras partes do mundo. conserva-se preso ao torrão, como aquelas árvores que oferecem ao vento o grão de novas sementeiras mas cada vez mais afundam as raízes na terra."
Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. p 129
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
| Castanheiro. Serra de S. Mamede, Alto Alentejo |
À acção do oceano, que atenua o calor e a secura estivais e mantém chuvas abundantes, se deve que, através do Cantábrico, algumas espécies vegetais da Europa média alcancem o território português e aqui tenham o limite meridional da sua expansão. Estão neste caso as árvores de folha caduca que, no Norte de Portugal, formam os últimos povoamentos importantes. O carvalho alvarinho ou roble, a aveleira, o vidoeiro branco das montanhas, não ultrapassam a Cordilheira Central; o carvalho negral, o castanheiro, o ulmeiro ou negrilho, o amieiro, o choupo, o freixo, o plátano bastardo, o teixo, predominam no Norte ou reaparecem no Sul só com a altitude. Algumas urzes, giestas e fetos, últimos representantes da flora lenhosa comum à Europa atlântica, ainda se encontram no Algarve. As silvas desempenham, no Norte, o papel das piteiras e figueiras-da-India no Sul, e com elas se misturam no Mondego baixo; a hera reveste muros de granito musgoso ainda na Serra de Sintra.
Os reagentes mais seguros das condições atlânticas são o carvalho alvarinho, algumas espécies de tojos (Ulex nanus em especial) e o pinheiro bravo. O carvalho alvarinho está quase confinado ao Noroeste, não desce além do Mondego nem atravessa o território português, substituído, nos planaltos trasmontanos e na Cordilheira Central, pelo carvalho negral, menos exigente de humidade. O género Ulex está representado por dezanove das vinte e duas espécies que compreende, dessas são endémicas sete e cinco variedades; parece, assim, provável que os tojos se originassem no próprio litoral português. Formam grandes povoamentos no Minho, na Beira ocidental, no Norte da Estremadura, com marcada preferência pelos terrenos siliciosos, mas não se estendem até à fronteira e no Sul reaparecem, em estreita relação com o solo que preferem e a proximidade do mar, na Serra de Sintra, na península da Arrábida e na Serra de Monchique. No Norte são roçados para camas de gado e preparação de estrume, às vezes rodeados cuidadosamente de muros e até propagados pela cultura.
O pinheiro bravo, que uns autores supõem introduzido na Idade Média e outros árvore antiga, teve em todo o caso, a partir de D. Dinis, a sua enorme difusão. Próprio dos areais da beira-mar, no Norte, espalhou-se, graças ao rápido crescimento e ao grande poder invasor, por todo o Ocidente, até ao Sado, e na Beira atravessa, pelo vale do Mondego, o território português; sobe, nas montanhas, até 1100 m e vai ganhando, lentamente, áreas cada vez mais orientais."
Orlando Ribeiro (1986). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. 4ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa. pp.101-102.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
Lamas d'Olo. Foto do blogue Arquitectura D'Ouro.
A aldeia trasmontana
Este tipo de aldeia "anda ligado aos campos abertos do Norte interior e às instituições comunitárias responsáveis pela sua organização. A aldeia é aglomerada num núcleo apenas ou em vários bairros próximos mas individualizados, providos cada um de seu nome, cujas casas umas vezes se tocam outras estão separadas por campos, lameiros, arvoredos ou logradouros e terrenos vagos. Mas a povoação não é totalmente cerrada: cada casa tem anexo um pátio na frente ou um quintal nas traseiras, ou abre dum lado para a rua, do outro para o campo. Como em todo o Norte, usa-se a casa de andar, para habitação, sendo o rés-do-chão reservado a curral, palheiro e o pátio a guarda do carro e utensílios agrícolas. As casas principais dispõem-se em roda de um amplo pátio interior. O fumo da lareira baixa escoa-se pelo telhado, enegrecendo o interior da casa. Nas áreas de xisto emprega-se a cobertura de ardósia, na montanha o colmo, excelente protecção contra o frio.
As aldeias são não raro alongadas em vários sentidos, o seu crescimento faz-se tanto pelo núcleo principal, como pelos bairros que se formam em torno dele. No centro, a igreja com um largo ou adro espaçoso, ensombrado por negrilhos, que também se encontram em roda e até no interior da povoação, e cujas folhas são usadas como forragem para o gado. Num extremo ventoso a eira comum, onde os vizinhos se prestam mutuamente ajuda por ajuda, noutro lugar o forno, onde todos cozem à vez, em regra em sítio que abra para o campo, a corte do boi do povo, touro reprodutor pago e mantido por todos."
Orlando Ribeiro (1991). "Aldeia: Significação e Tipos". Opúsculos Geográficos. IV Volume: O Mundo Rural. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp.359-360.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
Foto retirada do blogue Arquitectura D'Ouro. Casa de Granja do Tejo, Tabuaço.
"A "arte" do granito.
Um dos traços mais impressionantes da civilização do Norte de Portugal é certamente a mestria na construção de granito. Nas casas, nos muros, nos suportes, nos monumentos, a pedra constitui sempre o principal material de construção. Terrenos do maciço antigo dispõem de granito, de xisto e de quartzite. A última rocha é muito dura, pesada e difícil de trabalhar; o seu uso é limitado a raras povoações muito rústicas assentes nas suas próprias surgências, usando-se em muitas delas a par com o xisto. Este extrai-se das pedreiras em lascas que não carecem de nenhum preparo para se sobreporem, ou em placas de ardósia, usadas como cobertura em certas áreas de montanha e, nalgumas cidades (Porto, Lamego, Viseu, etc.), como revestimento de paredes de tabique. Mas é raro que o xisto dê grandes blocos resistentes: nas casas humildes recorre-se à madeira para os lintéis das portas, nas melhores às ombreiras de granito. Alguns castelos de xisto, grosseiramente aparelhados, têm também cunhais de granito, lavrados com outro esmero. O papel essencial que desempenham na construção pode avaliar-se pela pena aplicada a certos deles na Idade Média: retirar-lhes os cunhais; na falta deste apoio, o resto da muralha não tardava a ruir. Os reis castigavam assim os atrevimentos feudais de certos senhores, tão ciosos da sua autonomia como aqueles da centralização monárquica. Onde os dois materiais existem lado a lado, a preferência pelo granito é manifesta. Em terras xistentas pode dizer-se que qualquer construção importante - igreja, castelo ou solar - raro é que não empregue esta rocha. É portanto no granito que se devem procurar as expressões mais perfeitas, ou mais ousadas, de uma arquitectura popular de pedra."
Orlando Ribeiro, "A Civilização do Granito no Norte de Portugal". Geografia e Civilização. Temas Portugueses. Livros Horizonte. pp. 13-14
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
Conheci o Professor Orlando Ribeiro no ano lectivo de 1973/74, quando iniciei a frequência do 2º ano do curso de Geografia. Nesse ano, o programa da cadeira de Geografia Humana I consistia no estudo comparado da Região Mediterrânea e da Ásia das Monções. Lembro-me das aulas começarem com o Professor a colocar um pequeno maço de folhas de formato A5 na secretária e de nos chamar a atenção, como futuros professores, para a necessidade de uma preparação prévia das aulas. Também nos esclareceu sobre o significado do enorme olho desenhado num painel que pontificava sobre a porta, ao lado do quadro, parecendo lançar sobre nós o seu olhar azulado. Disse-nos que estava lá para nos lembrar da importância que a observação tem para os geógrafos.
Nesse ano tive a possibilidade de começar a contactar com a obra do Professor Orlando Ribeiro. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico e Mediterrâneo, Ambiente e Tradição eram as obras fundamentais para o estudo da região mediterrânea e que serviam de extensão ao fascínio que nos era transmitido pelo discurso produzido nas aulas. Os acontecimentos que alteraram a vida académica, a partir de Abril desse ano, impediram que o trabalho da cadeira chegasse ao fim.
Mais tarde, frequentei o seminário de Geografia Regional, orientado pelo Professor. Na distribuição do trabalho, coube-me a análise da Península Ibérica na obra Nouvelle Géographie Universelle de Elisée Reclus. Na sequência da apresentação do trabalho de seminário, o Professor convidou-me para colaborar com ele. Foi assim que, em 1977, se iniciou a minha colaboração em actividades que iam desde a preparação, para reedição de textos dispersos em várias publicações, bem como inéditos, e a recolha de informação necessária para as investigações que tinha em curso. Graças a este trabalho, tive o privilégio de conhecer uma grande parte da obra do Professor e, sobretudo, de me aperceber das suas preocupações com a divulgação e o ensino da Geografia.
Nos períodos em que não se encontrava doente, o Professor aproveitava para me orientar sobre os textos que deviam ser preparados para publicação e para estabelecer alguma sequência a fim de os integrar nas obras que tinha programado. Contudo, o trabalho final de compilação e de publicação foi realizado pela Professora Suzanne Daveau.
Em grande parte da sua vasta produção científica, o Professor aliou ao rigor próprio da investigação, uma escrita tão elegante, tão clara e acessível que podia ser entendida por leigos em questões geográficas, contribuindo assim de forma extraordinária para a divulgação do conhecimento da Geografia.
No que respeita ao ensino, muitas das suas obras foram e continuam a ser fundamentais para a compreensão do espaço geográfico. Muitos dos seus textos têm uma capacidade didáctica tão evidente, que têm sido incluídos em manuais de Geografia e de História para o ensino secundário.
Dessa colaboração também resultou algum trabalho que realizei sob a orientação do Professor, seguindo algumas das sugestões que me foi fazendo sobre temas que também a ele lhe interessavam.
Fruto dos anos de convívio e de trabalho, fiquei com a consciência da grandeza da obra geográfica do Professor Orlando Ribeiro. Mas, também, da grandeza da sua condição humana e do notável humanista que, efectivamente, era: cientista internacionalmente prestigiado, pedagogo influente, conversador brilhante, poeta e apreciador de grandes poetas, melómano de apurado gosto pela música que partilhava connosco nas visitas e nas sessões de trabalho.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
No dia 16 de Fevereiro completam-se 100 anos do nascimento de Orlando Ribeiro.
Ver Vida e obra
Dedico este mês ao grande geógrafo e humanista, sendo aqui publicados alguns excertos das suas obras.
É esta a minha modesta homenagem.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Musgo e poesia
| Musgo sobre granito |
Hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos
dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde e
as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais
não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e o teu rosto ter desaparecido no fundo do mar
ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como é louca esta ,mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas
Al Berto
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Leituras
O exercício de leitura no grupo é um momento da semana muito interessante. Difícil é selecionar os textos. Têm de obedecer a alguns critérios, o principal dos quais é serem relativamente pequenos para não ficar nada suspenso de uma semana para a outra. Já se fizeram experiências interessantes, outras nem tanto. A poesia é muito apreciada pelo grupo e é muito frequente estar incluída no roteiro das sessões. O Romanceiro, histórias da tradição oral recolhidas no século XIX por Almeida Garrett, proporcionaram momentos bem agradáveis, sobretudo com a hilariante odisseia da Dona Ausenda, donzela que ficou prenhada depois de pôr a mão numa erva fadada.
Os contos são o género literário, conjuntamente com a poesia, que mais se adequa a esta atividade. São muito apreciados os que têm um conteúdo divertido e que suscitam depois uma conversa sobre experiências relacionadas com a história. Como no caso do Luisinho, o menino comilão e gorducho que ficou preso na janela da despensa*. Também o filho de uma das nossas amigas ficou preso na janela do sótão ao tentar entrar em casa a altas horas da noite.
*Conto de Luisa Costa Gomes, "A Janela da Despensa como Argumento Moral", Contos Outra Vez. Associação Portuguesa de Escritores.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Gota de água
A gota de água formou-se sobre o ramo do limoeiro. Não é da chuva, porque não tem chovido por estes dias. Quer dizer, tem havido precipitação mas daquela que resulta de um nevoeiro persistente que envolve tudo e vai depositanto sobre as superfícies pequenas gotículas, as quais, coalescendo, vão-se tornando cada vez maiores. E a gravidade vai fazendo com que a gota escorra lentamente, qual lágrima deslizando no rosto, até que cai e se perde na terra.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Trevo
É apenas um trevo vulgar, não um daqueles trevos que se diz serem da sorte e que têm quatro folhas o que, ao fim e ao cabo, é uma contradição ao próprio nome da planta. Aparece espontaneamente nos vasos das minhas plantas. O orvalho cuidou de colocar pequenas gotículas de água na superfície das folhas.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Banco de jardim
Longe estão as noites de bulício na praça (ou será jardim?). Na inclemência dos calores de verão, de dia faltam sombras acolhedoras que possam amenizar o efeito de acumulador térmico da calçada.
Agora é inverno. Tempo de resguardo no interior das casas. Os bancos vazios esperam por dias de sol que possam aquecer os corpos friorentos.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Céu de Inverno e poesia
ANIMAIS DE FOGO
Um dia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!
Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas. Segue carta
explicando como a paz começa.
Há sempre um barco para embarcar,
um pé de videira para a sede.
No ano mais desabrigado da minha vida
não posso deixar que a tristeza
sujeite estes versos. Não quero deixar.
Estou quase a nascer outra vez
após alguns tropeços e febres malignas,
estou na margem florida do meu continente.
Não posso, não quero, não me vou deixar
Transformar num poeta azedo.
Fernando Assis Pacheco
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
La Mer
Aos sábados, de manhã, Júlio Isidro apresenta na Antena 1 um programa que nos faz recuar algumas décadas. À "Ilha dos Tesouros" (acho que é assim que se chama), ele vai buscar canções que fizeram êxito, cantadas em castelhano, italiano e francês, as quais passavam frequentemente na rádio, antes da hegemonia da música cantada em inglês.
Gosto particularmente de recordar os grandes cantores franceses do século passado. No último sábado, passou a música de Charles Trenet "La Mer".
Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie
La mer
Au ciel d'été confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer bergère d'azur
Infinie
Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées
La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A bercé mon coeur pour la vie
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Alentejo
Êxtase (Monforte do Alentejo 28/12/68)
Terra, minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
Sempre segura nos pés,
Sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
Enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim e eu em ti!
Miguel Torga
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terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Paisagem de inverno e poesia
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
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sábado, 1 de janeiro de 2011
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Ir ao cinema
Ser avó tem destas coisas: era inevitável ir ao cinema com o neto mais velho, neste final de férias de Natal. Escolhemos o dia de hoje, primeira sessão de um filme classificado M6, claro, de animação e, inevitavelmente em 3D. O filme até é engraçado - Entrelaçados - muito ao estilo dos estúdios da Disney. Mas não pode deixar de ser estranho estar numa sala com mais de 300 lugares, sendo que a ocupação não excederia muito a dezena.
Claro que saí de lá com uma certa dor de cabeça por causa dos benditos óculos...
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