terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Mês de Orlando Ribeiro
No dia 16 de Fevereiro completam-se 100 anos do nascimento de Orlando Ribeiro.
Ver Vida e obra
Dedico este mês ao grande geógrafo e humanista, sendo aqui publicados alguns excertos das suas obras.
É esta a minha modesta homenagem.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Musgo e poesia
| Musgo sobre granito |
Hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos
dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde e
as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais
não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e o teu rosto ter desaparecido no fundo do mar
ficou-me esta mão com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como é louca esta ,mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas
Al Berto
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Leituras
O exercício de leitura no grupo é um momento da semana muito interessante. Difícil é selecionar os textos. Têm de obedecer a alguns critérios, o principal dos quais é serem relativamente pequenos para não ficar nada suspenso de uma semana para a outra. Já se fizeram experiências interessantes, outras nem tanto. A poesia é muito apreciada pelo grupo e é muito frequente estar incluída no roteiro das sessões. O Romanceiro, histórias da tradição oral recolhidas no século XIX por Almeida Garrett, proporcionaram momentos bem agradáveis, sobretudo com a hilariante odisseia da Dona Ausenda, donzela que ficou prenhada depois de pôr a mão numa erva fadada.
Os contos são o género literário, conjuntamente com a poesia, que mais se adequa a esta atividade. São muito apreciados os que têm um conteúdo divertido e que suscitam depois uma conversa sobre experiências relacionadas com a história. Como no caso do Luisinho, o menino comilão e gorducho que ficou preso na janela da despensa*. Também o filho de uma das nossas amigas ficou preso na janela do sótão ao tentar entrar em casa a altas horas da noite.
*Conto de Luisa Costa Gomes, "A Janela da Despensa como Argumento Moral", Contos Outra Vez. Associação Portuguesa de Escritores.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Gota de água
A gota de água formou-se sobre o ramo do limoeiro. Não é da chuva, porque não tem chovido por estes dias. Quer dizer, tem havido precipitação mas daquela que resulta de um nevoeiro persistente que envolve tudo e vai depositanto sobre as superfícies pequenas gotículas, as quais, coalescendo, vão-se tornando cada vez maiores. E a gravidade vai fazendo com que a gota escorra lentamente, qual lágrima deslizando no rosto, até que cai e se perde na terra.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Trevo
É apenas um trevo vulgar, não um daqueles trevos que se diz serem da sorte e que têm quatro folhas o que, ao fim e ao cabo, é uma contradição ao próprio nome da planta. Aparece espontaneamente nos vasos das minhas plantas. O orvalho cuidou de colocar pequenas gotículas de água na superfície das folhas.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Banco de jardim
Longe estão as noites de bulício na praça (ou será jardim?). Na inclemência dos calores de verão, de dia faltam sombras acolhedoras que possam amenizar o efeito de acumulador térmico da calçada.
Agora é inverno. Tempo de resguardo no interior das casas. Os bancos vazios esperam por dias de sol que possam aquecer os corpos friorentos.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Céu de Inverno e poesia
ANIMAIS DE FOGO
Um dia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!
Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas. Segue carta
explicando como a paz começa.
Há sempre um barco para embarcar,
um pé de videira para a sede.
No ano mais desabrigado da minha vida
não posso deixar que a tristeza
sujeite estes versos. Não quero deixar.
Estou quase a nascer outra vez
após alguns tropeços e febres malignas,
estou na margem florida do meu continente.
Não posso, não quero, não me vou deixar
Transformar num poeta azedo.
Fernando Assis Pacheco
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
La Mer
Aos sábados, de manhã, Júlio Isidro apresenta na Antena 1 um programa que nos faz recuar algumas décadas. À "Ilha dos Tesouros" (acho que é assim que se chama), ele vai buscar canções que fizeram êxito, cantadas em castelhano, italiano e francês, as quais passavam frequentemente na rádio, antes da hegemonia da música cantada em inglês.
Gosto particularmente de recordar os grandes cantores franceses do século passado. No último sábado, passou a música de Charles Trenet "La Mer".
Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie
La mer
Au ciel d'été confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer bergère d'azur
Infinie
Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées
La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A bercé mon coeur pour la vie
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Alentejo
Êxtase (Monforte do Alentejo 28/12/68)
Terra, minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
Sempre segura nos pés,
Sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
Enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim e eu em ti!
Miguel Torga
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terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Paisagem de inverno e poesia
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
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sábado, 1 de janeiro de 2011
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Ir ao cinema
Ser avó tem destas coisas: era inevitável ir ao cinema com o neto mais velho, neste final de férias de Natal. Escolhemos o dia de hoje, primeira sessão de um filme classificado M6, claro, de animação e, inevitavelmente em 3D. O filme até é engraçado - Entrelaçados - muito ao estilo dos estúdios da Disney. Mas não pode deixar de ser estranho estar numa sala com mais de 300 lugares, sendo que a ocupação não excederia muito a dezena.
Claro que saí de lá com uma certa dor de cabeça por causa dos benditos óculos...
sábado, 25 de dezembro de 2010
Loa
É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.
Miguel Torga
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Árvore e poesia
Nesta luz quase louca
que se prende aos telhados
às árvores aos cabelos das mulheres
aos olhos mais sombrios
falamos de ti do teu alto exemplo
e é com intimidade que o fazemos
falamos de ti como se fosses
a árvore mais luminosa
ou a mulher mais bela mais humana
que passasse por nós com os olhos da vertigem
arrastando toda a luz consigo.
Alexandre O’Neill
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domingo, 19 de dezembro de 2010
Cântico de Natal Alentejano
sábado, 11 de dezembro de 2010
Paisagem e poesia
A morte é curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa
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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Aridez
Algures, no interior da Península Ibérica, a grande aridez condiciona a ocupação humana. Uma pequeena povoação surge numa depressão entre montes quase nús de vegetação.
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Caminhar sem fim ou a cantiga da roda
Na altura em que os programas de M. Giacometti foram transmitidos pela RTP 1, assisti a grande parte deles. No entanto, houve um episódio que me ficou na memória: a de uma mulher velha que entoava uma canção enquanto realizava o penoso trabalho de fazer mover a roda que elevava a água da ribeira para abastecer os canais de rega. O cansaço dela era contagioso na sua caminhada sem fim. A cantiga, servindo para, de certo modo, aligeirar a dureza da tarefa, acentuava ainda mais o esforço enorme que era necessário para a realizar.
São imagens de um tempo que, felizmente, pertence ao passado. Mas que não devemos esquecer, nem que seja para valorizar o que hoje temos.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Música popular tradicional
A recentemente iniciada publicação, pelo jornal Público, dos vídeos do programa da RTP 1 "Povo de Canta", proporciona o contato com preciosas formas de cultura popular, algumas já desaparecidas. Entre as canções gravadas por Giacometti, esta de Catarina Chitas, da Beira Baixa, é particularmente comovente e encantadora.
Esta e outras intervenções de cantores e tocadores populares, vêm demonstrar a adulteração a que a música tradicional popular foi sujeita por via dos chamados ranchos e grupos folclóricos.
Esta e outras intervenções de cantores e tocadores populares, vêm demonstrar a adulteração a que a música tradicional popular foi sujeita por via dos chamados ranchos e grupos folclóricos.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Rio Ebro
| Puente de Piedra sobre o Rio Ebro |
O Rio Ebro é um dos quatro grandes rios da Península Ibérica e o único cujo percurso é feito exclusivamente em território espanhol. Nasce na Cordilheira Cantábrica e desagua no Mediterrâneo. Não sendo o mais longo (o maior é o Tejo), é, no entanto, o mais caudaloso.
Era o único que me faltava conhecer, embora o contato se tenha limitado à cidade de Saragoça. Na foto, a Ponte de Piedra, edificada no século XV e restaurada no século XVII.
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