Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Banco de jardim

Longe estão as noites de bulício na praça (ou será jardim?). Na inclemência dos calores de verão, de dia  faltam sombras acolhedoras que possam amenizar o efeito de acumulador térmico da calçada.
Agora é inverno. Tempo de resguardo no interior das casas. Os bancos vazios esperam  por dias de sol que possam aquecer os corpos friorentos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Céu de Inverno e poesia


ANIMAIS DE FOGO

Um dia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!

Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas.  Segue carta
explicando como a paz começa.

Há sempre um barco para embarcar,
um pé de videira para a sede.
No ano mais desabrigado da minha vida
não posso deixar que a tristeza
sujeite estes versos. Não quero deixar.

Estou quase a nascer outra vez
após alguns tropeços  e febres malignas,
estou na margem florida do meu continente.

Não posso, não quero, não me vou deixar
Transformar num poeta azedo.

Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

La Mer



Aos sábados, de manhã, Júlio Isidro apresenta na Antena 1 um programa que nos faz recuar algumas décadas. À "Ilha dos Tesouros" (acho que é assim que se chama), ele vai buscar canções que fizeram êxito, cantadas em castelhano, italiano e francês, as quais passavam frequentemente na rádio, antes da hegemonia da música cantada em inglês.
Gosto particularmente de recordar os grandes cantores franceses do século passado. No último sábado, passou a música de Charles Trenet "La Mer". 

La mer
Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie


La mer
Au ciel d'été confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer bergère d'azur
Infinie


Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées


La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A bercé mon coeur pour la vie

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Alentejo


Êxtase (Monforte do Alentejo 28/12/68)

Terra, minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
Sempre segura nos pés,
Sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
Enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim e eu em ti!

Miguel Torga

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Paisagem de inverno e poesia


Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011

 Um novo dia,
Um novo ano.
Esperança renascida?
Ilusão de mudança
Apenas porque mudámos de calendário.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ir ao cinema

Ser avó tem destas coisas: era inevitável ir ao cinema com o neto mais velho, neste final de férias de Natal. Escolhemos o dia de hoje, primeira sessão de um filme classificado M6, claro, de animação e, inevitavelmente em 3D. O filme até é engraçado - Entrelaçados - muito ao estilo dos estúdios da Disney. Mas não pode deixar de ser estranho estar numa sala com mais de 300 lugares, sendo que a ocupação não excederia muito a dezena. 
Claro que saí de lá com uma certa dor de cabeça por causa dos benditos óculos...

sábado, 25 de dezembro de 2010

Loa




É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

Miguel Torga

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Árvore e poesia


Nesta luz quase louca
que se prende aos telhados
às árvores aos cabelos das mulheres
aos olhos mais sombrios
falamos de ti do teu alto exemplo
e é com intimidade que o fazemos
falamos de ti como se fosses
a árvore mais luminosa
ou a mulher mais bela mais humana
que passasse por nós com os olhos da vertigem
arrastando toda a luz consigo.

Alexandre O’Neill

sábado, 11 de dezembro de 2010

Paisagem e poesia

A morte é curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.


Fernando Pessoa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Aridez

Algures, no interior da Península Ibérica, a grande aridez condiciona a ocupação humana. Uma pequeena povoação surge numa depressão entre montes quase nús de vegetação.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Caminhar sem fim ou a cantiga da roda



Na altura em que os programas de M. Giacometti foram transmitidos pela RTP 1, assisti a grande parte deles. No entanto, houve um episódio que me ficou na memória: a de uma mulher velha que entoava uma canção enquanto realizava o penoso trabalho de fazer mover a roda que elevava a água da ribeira para abastecer os canais de rega. O cansaço dela era contagioso na sua caminhada sem fim. A cantiga, servindo para, de certo modo, aligeirar a dureza da tarefa, acentuava ainda mais o esforço enorme que era necessário para a realizar.
São imagens de um tempo que, felizmente, pertence ao passado. Mas que não devemos esquecer, nem que seja para valorizar o que hoje temos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Música popular tradicional


A recentemente iniciada publicação, pelo jornal Público, dos vídeos do programa da RTP 1 "Povo de Canta", proporciona o contato com preciosas formas de cultura popular, algumas já desaparecidas. Entre as canções gravadas por Giacometti, esta de Catarina Chitas, da Beira Baixa, é particularmente comovente e encantadora.
Esta e outras intervenções de cantores e tocadores populares, vêm demonstrar a adulteração a que a música tradicional popular foi sujeita por via dos chamados ranchos e grupos folclóricos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Rio Ebro

Puente de Piedra sobre o Rio Ebro

O Rio Ebro é um dos quatro grandes rios da Península Ibérica e o único cujo percurso é feito exclusivamente em território espanhol. Nasce na Cordilheira Cantábrica e desagua no Mediterrâneo. Não sendo o mais longo (o maior é o Tejo), é, no entanto, o mais caudaloso.


Era o único que me faltava conhecer, embora o contato se tenha limitado à cidade de Saragoça. Na foto, a Ponte de Piedra, edificada no século XV e restaurada no século XVII.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Atração turística

Já aqui mostrei algumas fotografias do Parque do Monasterio de Piedra, que visitei no princípio do mês de Novembro. Pode considerar-se um oásis no meio de uma região calcária, caracterizada pela secura. No entanto, uma funda garganta e o rio Piedra, proporcionam condições ecológicas para o desenvolvimento de uma vegetação ribeirinha, constituída por uma sucessão de árvores mais ou menos adaptadas a situações de encharcamento do solo: junto do rio aparecem os salgueiros, a seguir os choupos, depois os ulmeiros e outras espécies.
Encontram-se no parque algumas árvores cujo tronco e altura revelam uma idade bastante avançada. Pude observar alguns exemplares de lódão-bastardo (Celtis australis L.) e de choupo-negro (Populus nigra L.). Existem também muitas árvores jovens, de que se destacam os plátanos.
A abundância de água é patente em vários pontos do parque. No entanto, algumas das quedas de água não são naturais. 
Tratando-se de uma propriedade particular é natural que esteja bem cuidada e, pelo que pude observar, pelo número de visitantes e pelos preços praticados, quer à entrada, quer nos produtos e serviços que são prestados, deve ser uma empresa rentável.
No entanto, no meio de toda esta beleza, há uma atração turística que me pareceu muito discutível. Trata-se do espetáculo do vôo das rapinas. Num cercado existem alguns exemplares de rapinas diurnas (águias, abutres...) e nocturnas, presas por correntes a poleiros. Em determinadas horas, segundo a informação, serão postas a voar. Não sei em que condições porque não assisti. Mas pude observar as condições em que as aves vivem. E não me pareceu que fossem as melhores.

Uma das rapinas nocturnas, em pleno dia, presa no tronco que lhe serve de poleiro

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Improviso

Aos ventos que passavam,
Por não poder com elas
Atirei um punhado de palavras.
Se rápidas voavam,
Depressa regressavam
E tombavam
Como no céu, às vezes, as estrelas,
Ou pétalas de flor no chão.

E o meu poema, os ventos o dirão...

José Régio

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Equilíbrio

Um lódão-bastardo (Celtis australis L.), surgindo da parede de calcário. Parque do Monasterio de Piedra, Saragoça, Espanha.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

Voo

Por um momento, as suas mãos ali pousaram,
Como aves no ninho.
Depois abriram-se, e voaram.
Saberão o caminho?

José Régio