Todas as noites ela me cingia
Nos braços com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a deslleixada e langorosa.
Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania
Aquela concepção vertiginosa.
Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...
Todas as noites ela, ó sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...
Cesário Verde
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Proh pudor
sábado, 28 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Falando de educação...
Todos os anos por esta altura o tema educação volta a estar na ordem do dia. Este ano, a decisão do Ministério da Educação de encerrar escolas do 1º ciclo do ensino básico com poucos alunos, tem sido objecto de muita discussão nos meios de comunicação social. Muita coisa se tem dito, nem sempre com a sensatez que o assunto requer.
Na televisão os repórteres afadigam-se a perguntar às famílias das crianças o que acham do fecho da escola da aldeia. Então, lá vêm os lamentos sobre a deslocação de 10 ou 20 quilómetros para a nova escola, o estarem todo o dia longe da família e outras razões que vão prejudicar gravemente o desenvolvimento das crianças. Nestas alturas, lembro-me sempre de uma rotina diária a que assisti durante muitos anos que consistia na passagem dos autocarros de colégios (alguns dos quais dos mais conceituados de Lisboa) que, de manhã muito cedo, se iam enchendo de crianças, muitas delas com idade inferior às que frequentam o 1º ciclo do ensino básico, e que só voltavam para as devolver às famílias no fim da tarde. Pela lógica dos entrevistados, a maioria da população dos grandes centros urbanos deve sofrer graves distúrbios por causa da vida a que foram sujeitos enquanto crianças.
No casos dos autarcas, começaram a ser mais comedidos nas críticas, apenas esperando que o orçamento do estado alargue os cordões à bolsa para custear os transportes escolares.
Quanto aos sindicatos, é daí que vêm as críticas mais violentas. Diz-se que o fecho das escolas é mais um factor de "desertificação" do interior. Evidentemente que o despovoamento do interior, com a diminuição da população jovem, é a verdadeira causa para o fecho das escolas e não consequência.
A agricultura que, em tempos recuados, ocupava grande parte da população, entrou em decadência ou mecanizou-se. As alternativas não existem para uma população jovem mais escolarizada que procura oportunidades de trabalho e não as encontra nem nas aldeias, nem na maioria dos pequenos centros urbanos do interior. A solução é sempre a mesma: deslocação para os grandes centros urbanos do litoral ou para o estrangeiro.
Os sindicatos, no entanto, não confessam abertamente a razão das suas posições: elas são fundamentalmente corporativas e de manutenção de um certo estado de coisas. Defender os postos de trabalho é louvável, mas não pode ser feito contra o interesse das crianças, muitas vezes esquecido quando se discutem as questões relacionadas com a educação. Em que condições podem aprender as crianças (sejam elas 10 ou 20) que estão integradas numa turma onde se leccionam os quatro anos do 1º ciclo do ensino básico? Como pode um professor trabalhar com níveis aceitáveis de qualidade nesta situação? Durante alguns anos ouvi testemunhos de professores deste grau de ensino que se lamentavam da dificuldade em desempenharem a sua missão nestas condições e, ainda, dos constrangimentos com que se confrontavam no que respeita à socialização e aos necessários estímulos ao desenvolvimento das crianças.
As autarquias têm-se empenhado na construção dos centros escolares, os quais dispõem de equipamentos e de pessoal que, caso decidam adoptar um projecto educativo de qualidade, podem proporcionar experiências educativas que nunca estarão ao alcance das pequenas escolas. Neste sentido, o fecho das escolas não pode ser encarado como mera medida economicista, mas como uma necessidade para melhorar a qualidade educativa.
Nota: Num comentário a um post do blogue Campo Maior na Internet fiquei a saber que em Degolados haverá mais de 35 crianças em idade de frequentar o 1º ciclo. No entanto, no próximo ano lectivo a escola da aldeia conta apenas com uma dezena de alunos. Quanto aos restantes, os pais terão decidido matriculá-los nas escolas de Campo Maior.
domingo, 22 de agosto de 2010
Felicidade
A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.
Jorge de Sena
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.
Jorge de Sena
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Flores da tipuana
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A formusura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;
O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;
Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos oferece,
Me está, se não te vejo, magoando.
Sem ti tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mortes alegrias mor tristeza.
Luis de Camões
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;
O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;
Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos oferece,
Me está, se não te vejo, magoando.
Sem ti tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mortes alegrias mor tristeza.
Luis de Camões
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
Canção do Semeador
Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.
Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.
Miguel Torga
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Parada
Com um grande termómetro no chapéu
e um certo ar marcial de género equidistante
todos saíram hoje das suas casas na duna
para a rua a soprar o vento que vem de longe
a certeza de que há-de vir de longe
a formiga que vem de muito longe
Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros
nas montras nos passeios por baixo dos bancos
passam os pontos escuros para o outro lado
sem esquecer o espelho
sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino para fazer a surpresa
sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte
da cor do sol
o pescoço da nossa felicidade
Mário Cesariny
e um certo ar marcial de género equidistante
todos saíram hoje das suas casas na duna
para a rua a soprar o vento que vem de longe
a certeza de que há-de vir de longe
a formiga que vem de muito longe
Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros
nas montras nos passeios por baixo dos bancos
passam os pontos escuros para o outro lado
sem esquecer o espelho
sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino para fazer a surpresa
sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte
da cor do sol
o pescoço da nossa felicidade
Mário Cesariny
domingo, 8 de agosto de 2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Povoamento
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
Ruy Belo
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
Ruy Belo
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Homenagem a Cesário Verde
Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas.
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda poetas cá no país!
Mário Cesariny
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas.
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda poetas cá no país!
Mário Cesariny
sábado, 31 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Cinismos
Eu hei-de-lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.
Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.
Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso.
Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!
E eu hei-de, então, soltar uma risada.
Cesário Verde
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.
Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.
Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso.
Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!
E eu hei-de, então, soltar uma risada.
Cesário Verde
terça-feira, 27 de julho de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
Salvamento do Filho
Vejo o filho levado pela mosca
e estremeço de horror!
Tirado do berço pela mosca,
aprende, aos zigue-zagues, a ser vítima da mosca,
mas não chora: um homem nunca chora.
A mosca agiganta-se, o filho diminui.
Um ruído de ventoinha invade o quarto.
Passa por mim a mosca, passa em tromba.
Vi com estes que a terra há-de comer
meu róseo filho que sorria!
Ó meu filho arrebatado que inocência a tua!
Essa fera peluda vai sugar-te
e tu sorris fininho, entre divertido e assustado,
como se a tripulasse num carrocel de feira!
E eu para aqui, tão caçador de moscas
numa infância tão aferroada,
sem um gesto, sequer uma palavra...
Mas de repente a mão disparo
no mesmo assomo colegial
perseguidor de moscas (era nas aulas de moral...)
e enquanto na direita a mosca se interroga,
na concha da mão esquerdao filho cai - e chora!
Alexandre O'Neill
e estremeço de horror!
Tirado do berço pela mosca,
aprende, aos zigue-zagues, a ser vítima da mosca,
mas não chora: um homem nunca chora.
A mosca agiganta-se, o filho diminui.
Um ruído de ventoinha invade o quarto.
Passa por mim a mosca, passa em tromba.
Vi com estes que a terra há-de comer
meu róseo filho que sorria!
Ó meu filho arrebatado que inocência a tua!
Essa fera peluda vai sugar-te
e tu sorris fininho, entre divertido e assustado,
como se a tripulasse num carrocel de feira!
E eu para aqui, tão caçador de moscas
numa infância tão aferroada,
sem um gesto, sequer uma palavra...
Mas de repente a mão disparo
no mesmo assomo colegial
perseguidor de moscas (era nas aulas de moral...)
e enquanto na direita a mosca se interroga,
na concha da mão esquerdao filho cai - e chora!
Alexandre O'Neill
sexta-feira, 23 de julho de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
No Jardim do Meu Pai
Agora possa dizer o quanto me doíam
a dureza do teu silêncio e as
veredas por onde te sumias
no teu exílio, ilha, o olhar
presos na última réstea de luz que no
mar se afoga.
A voz antiga que se impunha não
falar da tua ausência
enchia-a e distraído
de mim apenas via nela as secas flores
murchas da memória.
Meu ignorado
mestre de enigmas os que percorriam o teu
sorriso breve
só por ti eram sabidos
ocultos na curva doce dos dias
que medias a olhar o teu
próprio fim.
Não mos podias tu ensinar a mim
nem eu aprendê-los de ti podia.
António Dacosta
a dureza do teu silêncio e as
veredas por onde te sumias
no teu exílio, ilha, o olhar
presos na última réstea de luz que no
mar se afoga.
A voz antiga que se impunha não
falar da tua ausência
enchia-a e distraído
de mim apenas via nela as secas flores
murchas da memória.
Meu ignorado
mestre de enigmas os que percorriam o teu
sorriso breve
só por ti eram sabidos
ocultos na curva doce dos dias
que medias a olhar o teu
próprio fim.
Não mos podias tu ensinar a mim
nem eu aprendê-los de ti podia.
António Dacosta
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