Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

domingo, 22 de agosto de 2010

Felicidade

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

Jorge de Sena

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A formusura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos oferece,
Me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mortes alegrias mor tristeza.

Luis de Camões

sábado, 14 de agosto de 2010

Canção do Semeador


Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.

Miguel Torga

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Parada

Com um grande termómetro no chapéu
e um certo ar marcial de género equidistante
todos saíram hoje das suas casas na duna
para a rua a soprar o vento que vem de longe
a certeza de que há-de vir de longe
a formiga que vem de muito longe

Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros
nas montras nos passeios por baixo dos bancos
passam os pontos escuros para o outro lado
sem esquecer o espelho
sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino para fazer a surpresa
sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte
da cor do sol
o pescoço da nossa felicidade

Mário Cesariny

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como  este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas.

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda poetas cá no país!

Mário Cesariny

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cinismos

Eu hei-de-lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso.

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

Cesário Verde

domingo, 25 de julho de 2010

Salvamento do Filho

Vejo o filho levado pela mosca
e estremeço de horror!
Tirado do berço pela mosca,
aprende, aos zigue-zagues, a ser vítima da mosca,
mas não chora: um homem nunca chora.

A mosca agiganta-se, o filho diminui.
Um ruído de ventoinha invade o quarto.
Passa por mim a mosca, passa em tromba.
Vi com estes que a terra há-de comer
meu róseo filho que sorria!

Ó meu filho arrebatado que inocência a tua!
Essa fera peluda vai sugar-te
e tu sorris fininho, entre divertido e assustado,
como se a tripulasse num carrocel de feira!

E eu para aqui, tão caçador de moscas
numa infância tão aferroada,
sem um gesto, sequer uma palavra...

Mas de repente a mão disparo
no mesmo assomo colegial
perseguidor de moscas (era nas aulas de moral...)
e enquanto na direita a mosca se interroga,
na concha da mão esquerdao filho cai - e chora!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 23 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

No Jardim do Meu Pai

Agora possa dizer o quanto me doíam
a dureza do teu silêncio e as
veredas por onde te sumias
no teu exílio, ilha, o olhar
presos na última réstea de luz que no
mar se afoga.
A voz antiga que se impunha não
falar da tua ausência
enchia-a e distraído
de mim apenas via nela as secas flores
murchas da memória.
Meu ignorado
mestre de enigmas os que percorriam o teu
sorriso breve
só por ti eram sabidos
ocultos na curva doce dos dias
que medias a olhar o teu
próprio fim.
Não mos podias tu ensinar a mim
nem eu aprendê-los de ti podia.

António Dacosta

segunda-feira, 19 de julho de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

Poema do livre arbítrio

Há uma fatalidade intrínseca, insofismável,
inerente a todas as coisas e nelas incrustada.
Uma fatalidade que não se pode ludibriar,
nem peitar, nem desvirtuar,
nem entreter, nem comover,
nem iludir, nem impedir,
uma fatalidade fatalmente fatal,
uma fatalidade que só poderá deixar de o ser
para ser fatalidade de outra maneira qualquer,
igualmente fatal.

Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.

E  já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.
Já sei que escolho fatalmente o bem.
Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,
como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.
O meu livre arbítrio
conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.

António Gedeão