Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A Al-Mu’Tamid



fitei intensamente a lua:
era o teu rosto
na noite do desespero.
de ti tive abundância
em tempo de penúria.
pude viver em graça
no abrigo que me davas.

ai, a saudade dessa estima antiga!
doce era ser sob a tua sombra:
errava no verde prado
perto da fonte de água fresca!

Ibn’Ammâr (1031-1084)
O Meu Coração é Árabe – A Poesia Luso-Árabe

(Tradução de Adalberto Alves)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sempre que a terra continua


Sempre que a terra continua
os cavalos passam...

E os cavalos que passam
são lugares onde o sorriso se suspende
onde, de repente, o lugar da terra se quebra
ante a miséria que se afasta e grita
por entre os olhos envoltos em melancolia.

Qualquer lugar da terra
é o estreito corredor por onde os cavalos passam!...

José Manuel Capêlo (1946-2010)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mármore

Realmente existe um mármore como existe um desgosto

E a força que distrai os homens visíveis da presença
[ambulante

É comum às pedras e em especial aos mármores
na apreensão da mínima diferença.

Jorge de Sena


Foto: Mármore Marinela. Museu do Mármore, Vila Viçosa

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Catástrofes

As catástrofes naturais acabam por ter como consequência, por um lado, desvendar situações de exclusão e de miséria que estavam mais ou menos camufladas e, por outro, a incúria de quem tem poderes para decidir sobre a ocupação do território. As populações mais vulneráveis são as mais fortemente atingidas. Vimos já isso em deslizamentos que acontecem frequentemente nos bairros de lata, por exemplo, do Brasil, quando as situações meteorológicas determinam grandes chuvadas; nos tsunamis que têm afectado regiões inteiras do Oriente; nos terramotos que têm acontecido nas áreas mais sensíveis a este tipo de fenómenos.
Mas o que vimos no Funchal é tão chocante nas áreas mais pobres como na parte que constituía um autêntico bilhete postal da cidade. Ver a força da água, potenciada pela enorme quantidade de materiais por ela transportados, galgar os canos em que foram transformados os leitos das ribeiras, romper estradas e ruas, destruir casas e pontes, foi um espectáculo aterrador. 
Tudo isto veio mais uma vez chamar a atenção para o perigo de se ocupar o território de modo desorganizado e sem respeitar as leis da natureza. Desde há muitos anos que especialistas, nomeadamente, geógrafos, vêm chamando a atenção para a necessidade de um planeamento mais rigoroso. As análises que têm sido feitas na sequência de cheias, nomeadamente as que registaram na região de Lisboa, com especial relevo para as de 1967, explicando os factores que determinaram a perda de vidas e de bens, não tiveram qualquer efeito sobre a decisão de autorizar a ocupação de áreas de elevado risco. Infelizmente, não há mecanismos para apurar responsabilidades sobre estas decisões.
Mesmo aqui, neste canto do Alentejo, apesar de a orografia não ser propícia para acontecimentos tão graves como o da Madeira, não deixa de ser preocupante ver encanar linhas de água e construir sobre as mesmas. A prevenção continua a ser a melhor maneira de evitar desastres. Esperemos que estas lições sejam percebidas pelos responsáveis pela gestão do território, para que não venhamos a lamentar desastres que podem perfeitamente ser evitados.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Solidão

 

Os dias passam devagar.
Angústia da impotência
De um lugar com grades.
Muros intransponíveis,
Relações impossíveis.
Falamos e não nos ouvem,
Clamamos sem sentido.
Ilhas num mar restrito.
Solidão.

(Autor desconhecido)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Experiências

Nunca me imaginei a dar aulas de Geografia tipo National Geographic. Além da necessária descrição, e explicação dos fenómenos geográficos a parte principal e mais importante é mostrar as paisagens e explorar os seus elementos, quer sejam de carácter físico, quer sejam os que resultam da intervenção humana. 
Uma das vantagens, actualmente, é poder dispor do acesso a uma vasta informação ilustrada através da internet. Para determinados assuntos, o meu arquivo de fotografias tem sido um recurso importante. E é reconfortante verificar que as pessoas que assistem a estas minhas sessões ficam mais despertas para ver determinados aspectos, os quais antes lhes passavam completamente despercebidos.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Deambulando por Lisboa

Manhã muito fria e chuvosa em Lisboa. Apesar de tudo, um passeio que permitiu revisitar ruas que trazem memórias. 
De Metro até ao Rato e a visão breve das obras de arte que ornamentam as estações. Na Rua da Escola Politécnica, uma paragem obrigatória na Císter para tomar um café. Em frente o edifício da antiga Faculdade de Ciências e o Jardim Botânico. Nunca mais lá entrei desde os tempos de frequência das aulas, antes do incêndio. Lembro as grandes salas, as madeiras escuras, o Museu de História Natural com as suas preciosidades e o magnífico jardim onde participei nalgumas aulas de Botânica. 
Nas ruas perpendiculares pode vislumbrar-se, de vez em quando, uma nesga de rio, cinzento como o céu que parecia querer desfazer-se em chuva.
O Largo do Príncipe Real está em obras. Todo cercado, nota-se o local onde foram abatidas as árvores.
 
O elevador da Glória lá continua na sua faina de sobe e desce a colina. 
 Nas ruas, alguns prédios em recuperação; os velhos apresentavam-se com as cores esbatidas pela acção do tempo e da chuva. Esta Lisboa tem um encanto inigualável. Mesmo com este tempo que mais convida a ficar em casa do que andar pela rua.
Uma breve paragem serviu para descansar e observar a admirável jóia do barroco que é a Igreja de S. Roque, num ambiente confortável e aquecido, pouco comum nas igrejas.
Na descida do Chiado, a estátua de Fernando Pessoa pingava água da sua superfície metálica, tornando mais escura a pintura que a recobre.
Por fim a Rua do Ouro, o Rossio e os Restauradores, tantas vezes calcorreados há muito tempo atrás. Há muitas mudanças: lojas que desapareceram, substituídas por outras mais modernas; algumas não escondem a grande decadência que prenuncia a sua morte; outras ainda, conseguem manter-se como as conheci. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para reflectir

"Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso da razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão."

Padre António Vieira. Sermão de Santo António aos Peixes

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Há dias assim

 

Há dias assim.
Acabam depressa para uns
Prolongam-se excessivamente para outros.
Dias cinzentos e frios
Outros azuis e luminosos.
Amenidades de que desfrutamos
Angústias que nos atrofiam
Azul, cinza, tudo é vida.

(Autor desconhecido)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nuvens e poesia

 

Canção queimada

Ardeu a folha de papel. O fumo,
Subindo, frívolo, sem rumo,
Breve no ar se dispersou.
Triste canção de algum dia!
- Nem um verso gemeu, enquanto ardia,
Nem uma sílaba gritou…

Contudo, pobre canção,
Quanto amor, quanta ilusão
Nos teus versos não havia!
Quanto de mim! Dir-se-ia
Que sem ti, pobre canção,
Minh’alma ficou vazia.

Ah! Sem esta sensação
Tão macia, tão macia
- Embora efémera e fria –
Da cinza na minha mão,
Talvez morresse… Morria,
Contigo, pobre canção!

Carlos Queiroz


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Situação da albufeira do Caia


As chuvas que caíram durante os meses de Dezembro e Janeiro contribuíram para o enchimento das albufeiras. No caso da albufeira do Caia, no final do mês de Janeiro, chegou ao nível de armazenamento de 46,9%, ligeiramente superior ao registado no ano passado que foi de 45,5%. 
Se as condições meteorológicas continuarem a propiciar chuva, e com os terrenos saturados, é de esperar que o nível do armazenamento aumente.
No entanto, é a única albufeira da bacia hidrográfica do Guadiana em território português que está com um nível de armazenamento abaixo dos 50%. Todas as outras registam valores superiores a 80%, algumas mesmo atingindo a sua capacidade máxima, caso de Alqueva, Enxoé e Lucefecit, conforme se pode ver no gráfico seguinte.

Fonte: SNIRH

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Para reflectir

"Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem os seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!"

Padre AntónioVieira. Sermão de Santo António aos Peixes

sábado, 30 de janeiro de 2010

Paisagem e poema


Solta a alegria! Que fique desatada!
esquece a ânsia que rói o coração.
tanta doença foi assim curada!
a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.

e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois que o alaúde e fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.

os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão.
da sabedoria só colherás a turbação
cravada no mais fundo do teu ser:
é que, de entre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.


Al-Mu'Tamid (1040-1095)





quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Stop

Qualquer interpretação é válida.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nuvens, ainda



Este Inverno tem sido particularmente chuvoso. O anticiclone dos Açores resolveu migrar para Sul e temos a visita frequente, durante muitos tempo seguido, dos mantos nebulosos que estão associados às depressões da frente polar.
Gosto de observar as nuvens, sejam elas cúmulos, nimbos, estratos, ou qualquer combinação destes. No dia 17 de Janeiro, houve momentos em que se pôde ver o azul do céu, por entre nuvens que iam do branco ao cinzento escuro.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Irresistível

Não resisti a colocar aqui o vídeo de Diana a cantar "E Depois do Adeus". Uma interpretação excepcional.


domingo, 17 de janeiro de 2010

Nuvens



Viajando na estrada entre Arronches e Campo Maior, ao fim da tarde deste domingo de Janeiro. Nuvens carregadas no horizonte e a visão fugaz de uma azinheira que, rapidamente, desapareceu no sentido contrário ao da deslocação do carro. Quase pôr-do-sol, com a luz rosada a espreitar por uma nesga do manto espesso e cinzento.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Neve

Apesar do frio ser frequente, é raro cair neve nesta região do Alentejo.
Mas aconteceu. Durante algum tempo, flocos de neve cairam e acumularam-se, transformando de forma inusitada a paisagem.


O jardim municipal
 
 O edifício da câmara municipal visto da minha janela

Telhados

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ocorrências

A quantidade de chuva que tem caído nas últimas semanas trouxe alguns contratempos e desastres a certas regiões do país. No caso do Alentejo, foi hoje notícia o problema do corte do abastecimento de água à cidade de Évora. No noticiário da tarde da SIC era anunciado que metais, entre os quais o alumínio, tinham sido arrastados pela água da chuva para a albufeira que abastece a cidade e, em consequência, a água que chegava às torneiras tinha excesso deste elemento, o que poderia pôr em risco a saúde pública.
Não é nenhuma novidade que o disparate abunda na comunicação social. O que aconteceu foi que a grande quantidade de água que chegou à albufeira estava carregada de materiais e a própria força da corrente fez com o depósito de fundo se misturasse com a água, tomando esta o aspecto barrento que bem se conhece em circunstâncias como esta. Para tratar esta água e torná-la límpida são usados produtos, em que se inclui o alumínio, em quantidades proporcionais ao estado de turvação da mesma. Isto mesmo explicou o presidente da câmara, mas parece que quem fez a notícia não ouviu ou não percebeu.
Outra notícia foi a derrocada de parte da muralha do baluarte do Mártir Santo em Campo Maior. Não é de admirar que tal tenha acontecido. A água da chuva deve ter saturado a terra que se encontra por baixo das pedras que formam o talude da muralha e a pressão exercida pelas casas que foram construídas sobre a mesma determinou a ocorrência da derrocada. É natural que agora se reclame contra as forças da natureza. No entanto, tudo isto é previsível e só o desmazelo e  a velha convicção de que "pode ser que nada aconteça" justificam casos como este.