Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Cobras

Era a última aula do dia. Já tinha escurecido.
A sala de Geografia, como vulgarmente acontecia em algumas escolas no final dos anos 70, tinha a configuração em anfiteatro. Os alunos eram aplicados e a relação entre eles e a professora era muito boa.
Estavam calmamente a cumprir a planificação do dia quando a porta se abriu e entrou um grupo de rapazes, bastante crescidos. Já esta situação era anormal, mas o pior é que traziam na mão uns pequenos paus, dos quais pendiam COBRAS!
Gerou-se o pânico. Os alunos correram para as filas mais altas do anfiteatro, afastando-se o mais possível do grupo.
A professora não tinha por onde fugir (e tinha um medo pânico de cobras). Reagiu instintivamente: falou com o grupo dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça: que se tinham enganado, que ali não era uma aula de Ciências Naturais. Acrescentou, que seria melhor dirigirem-se ao respectivo laboratório. Ou porque a representação de "pessoa corajosa sem medo de cobras" foi perfeita, a verdade é que o grupo de matulões se foi embora, não sem antes colocarem algumas cobras a passear no chão da sala. Em abono da verdade, as cobras até eram pequenas...
Claro que a aula tinha acabado. Sairam da sala para pedir auxílio a alguma contínua, mas o corredor estava completamente deserto e a fraca iluminação e as restantes salas vazias davam ainda mais o ambiente para uma cena de filme de terror.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes

domingo, 22 de junho de 2008

Montánchez

O passeio do dia 10 de Junho continuou depois da visita a Trujillo. Optámos por uma estrada secundária, relativamente estreita mas bem asfaltada que não ofereceu qualquer dificuldade ao motorista do autocarro. A baixa velocidade a que nos deslocámos permitiu apreciar devidamente a paisagem. À medida que caminhávamos para Sul, entravamos no domínio da montanha. A Serra de Montánchez está estruturalmente ligada aos movimentos tectónicos que elevaram a Serra de S. Mamede, estando no alinhamento que, a partir desta, se prolonga para Leste.
Os blocos de granito, o montado e alguns tractos de terra cultivada em tapadas, tudo recorda a serra alentejana.
Montánchez é uma pequena povoação serrana. A coroar a elevação que está muito próxima dos 1000 metros de altitude, encontram-se as ruínas do castelo medieval. Dada a impossibilidade do autocarro entrar na povoação, foi com coragem que enfrentamos a subida até ao castelo. Mas não há como os sítios altos para se poder apreciar uma bela paisagem.

O castelo de Montánchez é um autêntico ninho de águias que assenta sobre afloramentos de granito. No interior encontra-se o Santuário de Nª Srª de la Consolación del Castillo. Na altura, algumas senhoras esfregavam e poliam laboriosamente um andor todo em prata. Além desta peça, verdadeiramente extraordinária, outras, como candelabros, já reluziam. Não há dúvida que estas são terras de conquistadores da América do Sul, pelos testemunhos que fomos encontrando.

Do castelo avista-se a povoação de que se destaca a torre junto à igreja, mas afastada do edifício do templo.


Como em qualquer povoação espanhola que se preze, não podia faltar a Plaza Mayor.

Montánchez tem como actividade importante a produção de presuntos. Na Plaza Mayor, uma cervejaria ostentava na porta uns puxadores muito originais relacionados com esta actividade. O presunto deve ser bom. Não o provei, mas cheirava muito bem.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Plaza Mayor de Trujillo

Do ponto de vista urbanístico, um dos aspectos que mais admiro nas cidades espanholas é a Plaza Mayor. Ela é o elemento fundamental da cidade. " A Plaza Mayor, porticada, cerrada ao trânsito, concebida como uma sala de visitas e de regozijos populares, é criação tipicamente espanhola" (O. Ribeiro, Opúsculos, vol. V, p. 383).

A Plaza Mayor de Trujillo apresenta as características referidas por O. Ribeiro com uma excepção: nela podem transitar viaturas, sendo, no entanto, proibido o estacionamento. O acesso é feito por várias ruas.
A planta da praça não tem uma forma quadrangular perfeita, como acontece com a de Salamanca. A irregularidade dá uma sensação de amplidão e o contraste dos edifícios dá-lhe um encanto único. Na foto vê-se o lado Oeste da praça, com a igreja de S. Martin, na frente da qual está a estátua equestre de Pizarro. Ao lado da igreja, à direita, o palácio dos Duques de San Carlos.

O lado Norte da Plaza Mayor. Por cima das casas vê-se o castelo e, à esquerda, a Torre del Alfiler.
A fachada Leste da praça.

Os arcos do Palácio da Justiça


O palácio dos Marqueses de la Conquista, na fachada Sul da praça.

Debaixo dos arcos do palácio dos Marqueses de la Conquista.

sábado, 14 de junho de 2008

Dia 10 de Junho

Este ano comemorei o 10 de Junho de forma bem pouco patriótica: fui passear a Espanha, na viagem de final de ano lectivo da Academia.
Foi uma viagem memorável. O destino principal era a cidade estremenha de Trujillo, na província de Cáceres. Uma cidade monumental, cheia de pontos de interesse.

Foi com algum esforço que consegui subir ao cimo da torre da igreja de Santa Maria la Mayor. Mas valeu a pena porque de lá se avista uma paisagem espectacular. Vê-se aqui o núcleo mais antigo que é constituído pelo castelo e por alguns palácios.

A Plaza Mayor, vendo-se a igreja de S. Martin e a estátua equestre de Pizarro, conquistador e fundador da cidade de Lima, no Perú.

As duas torres da igreja de S. Martin, à esquerda, e a Torre del Alfiler. Em todas as torres estão presentes as cegonhas.

Uma das ruas da cidade - Calle de la Juderia - que me transportou no espaço, dadas as semelhanças com as ruelas do bairro de Alfama, em Lisboa.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Amoreira

Em contraste com a imponência da araucária de Aldeia da Mata, esta amoreira que fotografei no dia 7 de Junho em Vila Boim, concelho de Elvas e que teima em sobreviver, ao contrário de algumas que não resistiram e estão mortas.
Neste concelho é comum encontrar imagens semelhantes a esta. Em consequência, quando o Sol começa a queimar, não há sombra que nos acolha.

sábado, 7 de junho de 2008

Araucária

Araucária surgindo por cima dos muros de uma casa em Aldeia da Mata, Crato.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sotaques

Quando os cómicos ou comediantes da nossa praça compõem personagens alentejanas adoptam um sotaque como se todos os alentejanos falassem da mesma maneira. Criaram assim um estereótipo que corresponde apenas a parte da realidade, talvez mais próxima de algumas áreas do Baixo Alentejo.
Só para falar do Nordeste Alentejo, como é diferente o modo de falar das pessoas de Campo Maior, de Portalegre ou de Nisa!!!
As influências que determinaram estas diferenças são muitas. É evidente que as terras mais próximas da fronteira assimilaram muito do castelhano e daí o modo de falar mais cantado e arrastado, com palavras vindas directamente ou adaptadas do outro lado da raia.
Quem já ouviu falar um natural de Nisa não pode deixar de notar a semelhança com o sotaque açoriano. Até ao século XIX, as terras de fronteira precisaram sempre de ter bastante população para assegurar a sua defesa. Quando não acontecia espontaneamente, os poderes instituídos procuravam que estas terras mantivessem uma população em número suficiente para precaver uma eventual investida dos castelhanos. Algumas foram colonizadas por foragidos à justiça que a elas se acolhiam porque estavam fora de qualquer jurisdição (os coutos de homiziados), de que é exemplo, nesta região, Arronches. Nisa terá acolhido colonos vindos dos Açores, o que explicará o modo peculiar de falar das suas gentes. Mas este modo de falar prolonga-se para Sul, embora com alguns cambiantes. No Crato ainda se fala com as vogais bastante fechadas.

domingo, 1 de junho de 2008

Pirilampos

Quando a noite
vem baixando,
nas várzeas ao lusco-fusco
e na penumbra das moitas
e na sombra erma dos campos,
piscam piscam pirilampos.

São pirilampos ariscos
que acendem piscas-piscando
as suas verdes lanternas,
ou são claros olhos verdes
de menininhos travessos,
verdes olhos semitontos,
semitontos mas acesos
que estão lutando com o sono?

Henriqueta Lisboa

(No Dia da Criança, este poema de que gosto particularmente)