Gambozino é uma animal imaginário.
Andar aos gambozinos, significa andar à toa, vaguear, vadiar, vagabundear.
É isto que eu prendendo: vaguear por vários assuntos, vários lugares, ao correr da imaginação e da disposição.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Demonstração da curiosidade das lebres

"Primeiro há que encontrar uma boa pedra plana, com uma mão de travessa de altura e larga bastante para meia folha de jornal. O dia não será de vento, para que se não espalhe o montinho de pimenta que, na confusão dos títulos e da letrinha miúda itálica e redonda, vai ser o gatilho desta espingarda. Como toda a gente sabe, a lebre é curiosa. Ainda mais do que o gato, Nem há comparação, basta dizer-se que o gato não quer saber do que vai pelo mundo, a ele tanto se lhe dá, ao passo que a lebre não pode ver um jornal caído numa estrada que não vá logo ver o que se passa, e tanto assim que há caçadores que descobriram um sistema, põem-se de atalaia atrás dum valado e quando a lebre se chega para saber as notícias, trás, fogo nela, o pior é que o jornal fica esfarrapado pelo chumbo e tem de se ir arranjar outro (...) Na pimenta, sim senhor é que está o segredo da arte, o que é preciso é que não haja vento, mas isso também é condição quando está o jornal na estrada, se o vento lhe dá e vai voando, nem a lebre lhe liga, que gosta de ler as notícias em seu sossego (...) daí a pouco aparece a primeira lebre, aos saltos, morde além, trinca por este lado, e de repente fica com as orelhas espetadas, viu o jornal. Que faz ela, Coitada, nem desconfia, vai naquela ânsia de saber notícias, corre para o jornal e começa a ler, é uma lebre feliz e contente, não lhe escapa uma linha, mas eis senão quando chega o nariz ao montinho da pimenta e funga (...) espirra, bate com a cabeça na pedra e morre. (...) querendo, passa-se por lá umas horas mais tarde e então é um cinturão de lebres, atrás de uma foi outra, é o que têm, são muito curiosas, não podem ver um jornal. (...) Pergunte a quem quiser, até uma criança de colo sabe estas coisas."

José Saramago, Levantado do Chão

No dia do livro, recordando também as histórias de caçadores que ouvia nos serões de inverno, no conforto da lareira.